ANJOS E DEMÓNIOS

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Acabou a batalha. A Oeste, mais uma vez, nada de novo.

De um lado, jazem ainda incrédulos, perdidos num imenso oceano, parte dos que tinham a grande esperança de conquistar terra firme, mas que não chegaram sequer a morrer na praia. Alguém, lá longe e à última hora, decidiu traçar-lhes, irreversivelmente, o destino desta longa campanha iniciada há mais de uma década. A certidão de óbito fora assinada. Eram somente fantasmas, pois afinal já tinham morrido mas ainda ninguém os tinha informado. Victis honos.

Do outro, os que, defendendo essa terra firme, entre a doentia devoção aos seus deuses e credos, o medo duma maldição encarnada por um preto, um careca e um imberbe e o terror ao rombo no tacho colectivo onde, em faustos banquetes, se saciam senhores e plebe, tios, primos e enteados, lutaram contra a desesperança, cerraram fileiras e se mobilizaram num derradeiro esforço final, superando todas as expectativas. Venere-se o apurado instinto de sobrevivência. No final, façamos justiça, a vitória foi colossal.

Entre eles, na praia, por entre as brumas e despojos da batalha, sobrevoam abutres sobre os restos de pequenos partidos implacavelmente desventrados pelos bombardeamentos do voto útil, pequenas forças que proliferam surpreendentemente, diga-se, como autênticos fungos, possivelmente fruto de tão estranho clima.

No meio do caos, sobreviveram poetas e sonhadores que se ergueram, sorriram e continuaram a sua marcha, porque nada tinham a ganhar. Todos tinham perdido.

Eis que, no final, tudo volta à sua ordem natural e dela emerge um novo ser disforme e bicéfalo, que alberga nas suas entranhas uma “estranha maioria”. Estranha, porque adjectiva uma suposta multidão que afinal não passa de uma quarta parte de possíveis confrades. A maioria, substantivamente, não é senão o fruto das vicissitudes desta ordem natural, há muito conhecida como partidocracia, aliás, democracia partidária, e que nos ofereceu, uma vez mais e no seu explendor, esta tamanha aberração que alguém se apressará a promulgar: – Os senhores da guerra eleitos, de ora avante e “legitimamente”, representam a “maioria” do povo açoriano. Ámen!

Sim. O povo foi soberano e de uma forma ou outra decidiu, até mesmo aqueles que fugiram deste calvário e se recusaram a participar no massacre. Destes mortos-vivos, a verdadeira maioria, que evitaram dar o corpo ao manifesto, aconteça o que acontecer e custe o que custar, espera-se agora o recato e a resignação, sob pena de, compulsivamente, passarem a figurar na eterna galeria dos bobos da corte.

Mas o povo decidiu. E decidiu pela eleição do fruto concebido por uma sucessão dinástica para governar sob leis de uma república. Como já nada é estranho neste novo mundo, eis que um grupo de castrados, incapazes de procriar, adoptaram e aceitaram jurar fidelidade a um novo líder, que assim, por geração espontânea, passou a ostentar a coroa e o bastão do seu magnânimo antecessor, o grande imperador. Veni, vidi, vici. Avé César. Mesmo sem sangue real, até porque, com a crise, já nem as monarquias são o que eram.

Na cerimónia da passagem do testemunho, serafins, anjos, violinos e música celestial adornam um cenário idílico. A mesma música celestial com que esse grande líder motivara as suas hostes antes do confronto final. Aquela balada irresistível capaz de embalar moscas, autistas e surdos mudos. Finalmente, também há flores, muitas flores, imensas flores, tantas quantas as necessárias para mascarar o fedor da putrefacção e ocultar provisoriamente as tumbas, há muito cavadas, onde tarde ou cedo também estes, sem que se dêem conta, acabarão enterrados vivos mal soem, vagarosamente, as tompetas apocalípticas que anunciarão a chegada austera dos demónios. Será então quando a maldita trindade, o preto, o careca e o imberbe, cobrará impiedosamente, com o sangue dos incautos, os juros de tanta ilusão. Dixi.






 

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