As “razões pedagógicas” do encerramento da escola do Salão

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1. O recente processo que levou ao encerramento de quase três dezenas de escolas nos Açores foi, no dizer da Secretária Regional da Educação “um processo longo e maturado, reflectido, atendendo a um objectivo primeiro e para nós mais importante, que é assegurar a qualidade pedagógica dos ensinamentos dos alunos”.

É, pois, legítimo concluir que, para o Governo Regional, se encerraram escolas nos Açores essencial e quase exclusivamente por “razões pedagógicas” e pensando no que era o melhor para os alunos.

2. Analisemos, com factos, se isso se verifica no encerramento da escola do Salão.

a) No ano lectivo passado, os alunos da escola do Salão entravam na escola cerca das 8h50; alguns almoçavam com a sua família; e regressavam às suas casas logo após o encerramento da escola.

Hoje, esses alunos (onde se inclui as crianças do pré-escolar, algumas com 3 anos), são recolhidos no Salão a partir das 07h45. Chegam a Pedro Miguel por volta das 08h15, quando a escola só começa às 09h00. À tarde, a escola acaba para os alunos da pré às 15h30 e para os do 1º ciclo às 16h10, mas os alunos só chegam ao Salão cerca das 17h30, nuns dias, e cerca das 16h45, noutros dias. Isto é: as crianças da pré-escola e do 1º ciclo do Salão, são, neste momento, obrigadas a estar fora de casa ininterruptamente pelo menos cerca de 9 horas!

Num cenário destes alguém verdadeiramente pode acreditar ou sequer invocar “razões pedagógicas”? Alguém acredita que um Governo que assim decide está a pensar no que é o melhor para estas crianças?

b) A escola do Salão oferecia as infra-estruturas essenciais aos seus alunos, para além naturalmente das salas de aula: recinto desportivo, refeitório e equipamentos informáticos, aos quais os alunos tinham acesso diário.

Enquanto a Escola do Salão oferecia isso, este ano em Pedro Miguel quando chove não pode haver Educação Física porque não cabem os alunos todos no ginásio coberto (que é ao mesmo tempo refeitório e sala de convívio) e quanto aos computadores não os há em número suficiente para os alunos todos.

Num cenário destes alguém verdadeiramente pode acreditar em “razões pedagógicas”? Alguém acredita que um Governo que assim decide está a pensar no que é melhor para estas crianças?

 

c) No ano lectivo passado a escola do Salão funcionou com 4 classes e na prática teve uma professora para cada conjunto de duas classes.

Este ano a escola fechou porque, embora tivesse duas classes (2º e 3º anos, com mais de 10 alunos no conjunto), o que o Governo pretendia, no dizer da Directora Regional da Educação, “é criar as melhores condições para oferecer às crianças um professor por ano de escolaridade”.

Hoje, em Pedro Miguel, é isso que têm essas crianças? Há em Pedro Miguel um professor para cada ano de escolaridade? Não: o que existe é o que é mais frequente na maioria das escolas: um professor para dois anos de escolaridade!

Havia nestas promessas do Governo alguma preocupação com as crianças? Havia alguma genuína preocupação pedagógica?

Obviamente que não! E, se havia, esvaiu-se rapidamente e não se concretizou!

 

d) Na reunião que teve com os pais das crianças da escola do Salão, a Directora Regional, explicando que não era bom as crianças continuarem na sua escola, invocou mais uma razão de peso para a fechar: é que se eventualmente a escola continuasse aberta com aquele número de alunos, as crianças que tivessem mais dificuldades não teriam direito a um professor de apoio, ao contrário do que iria acontecer em Pedro Miguel.

A verdade é que, até à data em que escrevo, esse professor de apoio ainda não fez a sua aparição às classes dos alunos do Salão que estão na escola de Pedro Miguel.

 

3. Por mais boa vontade que possa haver, a verdade é só uma: não há Pedagogia que suporte esta decisão, nem na teoria, nem agora na prática, quando nos apercebemos de como as coisas se estão a processar e a acontecer no terreno.

E gostava sinceramente de ver o que diriam ou fariam alguns dos poucos defensores que restam desta decisão, se estivessem em causa, não os filhos de uns distantes pais do Salão, na ilha do Faial, mas os seus próprios filhos?

 

4. Quando na base das decisões não há ponderação, amadurecimento, diálogo e procura sincera e conjunta das melhores soluções, sabendo que cada caso é um caso, resta o que se está vendo: um autoritarismo sem razão, uma prepotência desumana e uma insensibilidade alarmante!

Foi nisto que se transformou a política educativa nos Açores!

                                                                                           03.10.2011

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