Há coisas contra as quais não consigo lutar. Uma delas é a cadeira de dentista. Sou fóbica. Irracional. Não consigo controlar o pavor e, se o não exteriorizo em palavras, contendo-o, sofro um horror.
Dias antes da consulta, um gesto, uma palavra, um som, um nada, que me façam lembrar o consultório do dentista, logo uma compressão no peito, uma aceleração de pulsações, uma perturbação metabólica…
Tudo isto tem uma explicação. É por atavismo. Quando criança, o dentista era mesmo o médico de clínica geral. Homem dos sete ofícios. O pai pegava-me pela mão e lá íamos a caminho do consultório do Dr. Eduardo. A primeira vez foi fácil, porque eu nem imaginava o que me estava esperando. Pelo caminho fui sendo animada com a promessa dos meus chocolates preferidos e histórias que só o pai sabia contar.
Sentei- me na cadeira e de repente alguma coisa começou a materializar-se .Não de chofre. À mistura com palavras de carinho(éramos não só conhecidos mas íntimos amigos) começaram a surgir instrumentos esquisitos e… sei lá como o meu dentinho apareceu cá fora. E sem anestesia. Não havia. E logo o Dr. Eduardo se me afigurou um monstro. A cadeira endureceu, os sapatos apertaram, aranhas tecendo um campo de concentração, o pai acalmando-me e, o mais grave, o Dr. Eduardo com o meu dentinho na mão, a arma do crime, rindo, achando graça… Na época era assim. Doía. Arrancava.
Nem sei como cheguei a casa. Chorei muito. Não tanto de dor, talvez, mas de raiva. Senti-me traída. E a partir daí, tive que lá voltar outras vezes. Recordo que, nervosamente levava todo o caminho falando, falando muito sem parar. E, sentada na cadeira, abria berreiro, puxando com força a mão do médico, o carrasco, com ímpetos de empurrar os demónios que eu imaginava lá no teto a rirem-se de mim enquanto o pai, olhos do tamanho do mundo segurava a minha mão, sabe Deus a sua dor!
E, vida fora não consigo controlar-me. Vou fingindo que, tudo bem, mas não. Na sala de espera, ruído de reverter o pó. Nas salas sofisticadas dos dentistas, o mesmo terror. É certo que não se sofre então, fisicamente, mas psicologicamente é tudo igual. Está ali o Dr. Eduardo sorrindo com um sorriso de centenas de dentes, o pai segurando-me com uma força de gigante e eu sofrendo, céu fechado sobre o nariz, lembrança daquele dente ensanguentado, horrível! Quer levar o seu dentinho? Que ironia! Que insensibilidade! Que Deus lhe perdoe Dr. Eduardo.
E não me venham dizer que não perduram traumas, factores endógenos e exógenos, fixações! Perduram até à morte. E, dia destes, um miúdo de oito anos, ao falar-lhe que nesse dia tinha dentista, ele abriu um sorriso de orelha a orelha, dizendo : – Dona Antonieta, que bom, eu gosto muito de ir ao dentista e ouvir aquele barulhinho da broca na minha boca.
Como diria Fernando Pessa “E esta , hein ?“











