Canto de Sereia

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1. O Partido Socialista de António José Seguro bem procura fazer de conta que não tem passado, bem procura fazer de conta que José Sócrates não existiu e bem procura fazer de conta que ainda há pouco mais de três meses não estava no Governo do País.

Só assim se entende o facto de ainda não termos ouvido à nova liderança do PS aquela que seria a mais importante mensagem que deveria dirigir a todos os Portugueses: um pedido de desculpas pelos desmandos da sua governação, pela liderança de José Sócrates e pela bancarrota em que deixou o País.

Em vez dessa franqueza e dessa assumpção de responsabilidades, o "novo" PS procura o mais rapidamente possível lavar as mãos do seu passado, descolando-se dos compromissos que obrigou o País a assinar e a cumprir, a cada semana que passa, com mais rigor e exigência. E assim também se distancia daqueles que sabem colocar os interesses supremos de Portugal acima de fidelidades individuais ou de grupo.

2. A sucessão de informações sobre a situação económico-financeira da Madeira, mereceu do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho a palavra que se impunha a quem coloca o superior interesse de Portugal acima de conivências partidárias. Passos Coelho não economizou na força e na precisão dos termos que usou. Afirmou que o que se tinha passado é "uma irregularidade grave, sem compreensão."

Como escreveu Maria Teixeira Alves "Não deixa de ser pertinente que seja um Governo do PSD a revelar o descalabro financeiro escondido da Madeira. Revela uma independência rara neste país."

Mais um sinal de que temos em Portugal uma nova forma de fazer política!

3. E precisamente por causa da situação da Madeira, António José Seguro desafiou Pedro Passos Coelho a retirar a confiança política em Alberto João Jardim. Coisa patética, vinda de quem teve, antes das eleições de 5 de Junho, a oportunidade de manifestar a sua desconfiança política em José Sócrates, e preferiu o silêncio cúmplice. Por isso, a situação da Madeira só pode exigir do PS moderação no discurso. É que bastaria ao PS ter consciência da forma em que deixou o País, exactamente na mesma bancarrota em que Jardim colocou a Madeira, para moderar as suas palavras e a sua condenação!

A ocultação de dívidas por parte do Governo Regional da Madeira nos últimos anos é, no mínimo, tão reprovável como o foi a delapidação financeira do País perpetrada por José Sócrates em seis anos de governo feito ao sabor das suas clientelas.

E a memória dos homens, embora curta, não o é assim tanto! Como perspicazmente escreveu Vasco Pulido Valente no "Público", "Guterres “deixou Portugal de tanga”, Barroso fugiu para o estrangeiro e Sócrates fabricou a desgraça que de repente nos caiu em cima. Mas quando Sócrates desapareceu, os políticos da direita e da esquerda decidiram que chegara a altura de mutuamente se absolverem das misérias da Pátria. E, por sua própria força e autoridade, decretaram que a partir do glorioso advento de Passos Coelho a regra era o esquecimento. Esta amnistia geral impede qualquer crítica pertinente, venha ela de que lado vier, e estende um fofo manto de suavidade sobre a nossa torpe e apática vida pública. Esta paz dos cemitérios manifestamente exclui Jardim. O que não é um mal. O mal é que não exclui as dúzias de oportunistas, que por aí se passeiam e que na televisão ou nos jornais não perdem uma oportunidade de nos dar conselhos."

4. Entre eles está Carlos César e o PS dos Açores, que se agarraram a estas notícias sobre a Madeira como náufragos a uma bóia salvadora. É que enquanto se fala da Madeira, não se fala dos Açores, nem do desregramento que por cá, à nossa escala, também abunda.

Aquele Carlos César e aquele PS que agora querem dar a imagem de alunos diligentes e impolutos, é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que incluía carrinhas, jipes, computadores, impressoras, fotocopiadoras e gabinetes completos nos custos das empreitadas da Reconstrução do Faial e Pico; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que adjudicou 2 km de condutas de água para a Lagoa Artificial do Faial por 329 mil contos, mais de metade do que custou a obra toda; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que já desbaratou 125 milhões de euros no transporte marítimo de passageiros sem que em resultado disso a Região viesse a ter sequer um barco seu; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que acha natural uma derrapagem de mais de 50% na obra das Portas do Mar, que tendo sido adjudicadas por 45 milhões de euros, afinal vieram a custar 70 milhões; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que acha normal na obra da nova Biblioteca de Angra do Heroísmo, que ainda decorre, já se tenha atingido quase 1,5 milhões de euros em trabalhos a mais, alguns dos quais verdadeiras bizantinices e luxos, como trocar vidros "u-glass" por "vidro temperado"; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que já enterrou no novo site do Turismo dos Açores cerca de 1,5 milhões de euros com modestíssimos resultados; é o mesmo César, o mesmo PS e o mesmo governo que abafou as suspeitas de utilização dos dinheiros do Fundo de Socorro Social para criar e manter clientelas de natureza político-partidária na ilha Terceira.

Embora a lista pudesse continuar com muitos casos, deixamos estes. Para que a memória dos homens perdure. E para que não nos deixemos levar no enganador canto de sereia.

20.09.2011

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