Acordei alta madrugada e não mais consegui conciliar o sono. Uma despertina daquelas. Saí da cama e frente à secretária uma foto nossa naquela ponte romana. Tu e eu. Felizes. Riso aberto. Qual a razão? Também não seria necessário ter uma razão forte para tal. Eram só vinte anos. Tudo tinha graça.
Fiquei então lembrando a tua frase predilecta que usavas e abusavas, quando a “coisa” não te convinha :- O que tem isso a ver com o meu chocolate quente” ? Lembras? Pois é! Tinhas razão. Nem tudo encaixa no mesmo meio, no mesmo cérebro, mas um dia explode tudo e tudo vai p´ró mesmo sítio!
Susana, nesta madrugada chuvosa de outono,outono da ilha, daquela ilha que prometeste visitar e eu esperando, vou entretanto fazendo o registo de toda uma vida passada, como uma pintura na caverna. Sinto-me navegando no mar das próprias emoções. Divagando e visitando outros lugares, lugares onde um dia fui feliz, fui senhora menina, tal como tu, Susana, e todas as colegas com universos de segredos, de desejos silenciosos, ambições secretas.
Obrigada Susana, pela troca, opiniões divididas, afectos, palavras inspiradas, delicadezas partilhadas. Foste uma das colegas preferidas. Olhávamo-nos e entendiamo-nos. O nosso código. Nunca uma zanga. Nunca raiva na palavra não dita.
Ao escrever-te, sinto saudades sem fim desse Alentejo que me acolheu de braços abertos, me entendeu, me acarinhou, me ajudou a crescer, me respeitou, me entregou seus filhos com confiança e bem soube mostrar gratidão pelo ensino que lhes ministrei. São eles, os alentejanos que continuam sendo o meu povo de eleição.
Gostaria de me encontrar um dia com todas as colegas de então, ouvir o sussurro do vento naquele silêncio das campinas, comer a fruta fresca daqueles pomares, desfrutar o conforto dos montes alentejanos. Ver o trigo vergando ao vento, mulheres de chapéu e lenço ceifando…uma doideira! Observar esse céu de pintor. E à noite, nas margens do Guadiana, a água refletindo a nossa imagem numa crise de referência ou num ataque de silêncio. A lua, senhora séria, senhora gorda, piscando os olhos, não sei se para nós se para a nossa lancheira com os doces da dona Bárbara.
Nas nossas vidas há sempre um questionamento metafísico em algum recanto da consciência. As perguntas estão lá, esperando respostas, enquanto nós nos vamos roendo de saudade, sentindo a imaginação voar. Ouvindo a cadência dos cantares alentejanos com que os alunos nos brindavam.
Nem imaginas a vontade de contactar colegas que viraram a curva do caminho, dizendo até já e não mais voltaram. Fica-se entre o esquecimento e a saudade. Tudo com muita velocidade, correndo, correndo e correndo… E nós, cá no fim da linha, sonhando e sonhando.
Susana, na era dos computadores e afins, será estranho receber uma carta manuscrita. Mas, crê, rabisquei estas linhas como quem une estrelas. As palavras escritas com caneta tem perfume. Amor sobre as vogais, carinho sob as consoantes.
Susana, para ti, aquele sorriso sem jeito à beira do comboio, no dia da despedida, aquela gota d´água ao canto do olho, fingindo que não. Como dirias :- O que tem isso a ver com o meu chocolate quente? Nada,Susana, tem a ver com a confraria dos corações emocionados.
Sinceramente
Maria Antonieta











