O bolo e a cereja ! Ora, santa paciência, já ninguém aguenta. Alguém inventou a cereja no topo do bolo e a frase caiu na graça do mundo. Semana passada, a meio dum debate televisivo, em que se debatiam assuntos sérios e importantes, de repente cai a cereja no bolo. E, para mim o fim do debate aconteceu. Aquele louco, sorrindo, teve o condão de fazer chocar, um acordar dum sono frio. Conseguiu. Misturando o terror de milhares de mortos vivos pela fome com aquela gracinha da cereja.
Ao menos se tentassem usar outra fruta para enfeitar o bolo! Outra que não a cereja cristalizada, sem bom ar, pouco comestível e pequena de mais para que possa atrair a atenção de quem quer que seja. Lá em casa a Mãe tinha o hábito de colocar no topo do bolo uma grande flor de açúcar, colorida. Tinha requinte! Longe da miserável e insípida cereja. A avó Aura, recordo, fazia arranjos com paus de canela, amoras ou morangos em ninho com um creme qualquer a dar um tom. Havia imaginação.
E o acordo ortográfico? Alguém me explica o que significa isso? Acordo com quem? Porquê? Que eu saiba para haver acordo terá que haver pelo menos dois. Só que os portugueses, tiveram a ousadia de fazer um acordo algo estranho.
O novo acordo ortográfico, pelo que conheço dele, não é mais que a imitação da ortografia alheia. Falando dos brasileiros, os portugueses imitando-os perderam letras, hífens, o escambau, mas esqueceram de pôr os chapéus no Antônio, no patrimônio, no demônio, enfim. E os brasileiros continuam escrevendo como dantes. É só pegar um qualquer jornal brasileiro e constatar que eles mandaram o acordo às urtigas.
Bem, aderindo ao acordo, o Egipto perdeu o p, como se chamarão os povos de lá? Egitios? Não. Não soa bem. Não me venham dizer que são egípcios. Não pode. Sai do acordo. Expliquem-me. Tem de fazer um pacto com alguém? Não, será um pato. E esse pato é o homónimo do tal, o outro, ou será o filho da pata? E na hora de narrar um facto? Perdeu o c. Acabou. Terminou a conversa. Vista-o.
Isto é de loucos. As palavras tem cheiros, texturas, tem alma, São a senha do mundo. E tudo isso é a nossa forma de vida. Vivem na nossa imaginação. Às vezes, com saudade, consulto o velho dicionário, peça rara no género, onde viajo e me sinto feliz. E porquê? Porque ele não aderiu!
Somos uns macaquinhos de imitação. Imitamos os outros, com aquelas caras pálidas na base do lexotan, feito idiotas, não tentando valorizar-nos, ter ideias, virar a mesa, dar o grito do Ipiranga, trepar na vida, sem muitos alaridos, devagarinho e sempre, não usando a burrice como um gigante de Troia.
E, lembro os guias de viagem. Nunca usei tal coisa. Penso que aqueles papelinhos informativos só servem mesmo para quem não viaja, para quem está plantado em casa, entediado, sentindo a vida passar. Será mesmo uma questão de sobrevivência e sanidade, porque lendo-os, olhando-os, se aprende que para lá do ali e do acolá há outros espaços, outras gentes, outras vidas. E, assim sendo, no conforto do lar, lá no cadeirão, a qualquer hora vai e vem, sem enfrentar tormentas, viagens malucas, nevoeiros, ventos, greves, línguas esquisitas, comidas estranhas, um inferno em vida! Tudo isto enquanto os outros, enfrentando todo esse horror, não tem tempo para ler folhetos, nem ao menos carregá-los. Parte, enfrenta os obstáculos e vai vendo, porque viajar é isso mesmo. E seja o que Deus quiser.
E, por fim, uma curta referência, que confunde e repugna. A ostentação arrogante de alguns, que julgando-se os maiores, olham os outros de cara enjoada, quando afinal a maioria das vezes são mais dignos de dó. Não imaginam que o valor das pessoas não se mede pelo número de notas no bolso, mas sim pela qualidade de neurónios na cabeça.
Fiz aqui uma pausa para uma auto análise. Julgo que encontrei uma conclusão definitiva. E, confesso sinceramente, fiquei um pouco constrangida na medida em que penso diferente de muitos outros. Afinal abomino coisas que eles adoram. E, o mais grave é que ainda, nesta fase da vida , rejeito esta verdade.
Dia destes uma amiga se escandalizou ao dizer-lhe que os portugueses eram de Portugal, ao passo que Portugal não era dos portugueses. E agora? Quem tem razão?











