Como entre Antero e Castilho, também aqui será uma questão de bom senso e bom gosto

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Por: Ricardo Madruga da Costa

Na habitual leitura semanal do Expresso acontece algumas vezes deixar a respectiva revista para mais vagarosa leitura. Por vezes vagarosa até ao esquecimento… Num dos meus regressos à semana anterior saltou-me à vista, literalmente, uma página à qual, habitualmente, não dou atenção. As abordagens ao design escapam aos meus interesses o que, provavelmente, não é propriamente uma virtude. Porém, a imediata identificação das imagens alusivas ao Padrão dos Descobrimentos ilustrando a crónica de Guta Moura Guedes, tendo por título “Ir ao Encontro”, despertou-me curiosidade. Ocorreu-me imediatamente se não viria de novo “à baila” a recente aleivosia de um deputado cujo nome nem gosto de pronunciar, propondo o desmantelamento do monumento. Para ele uma questão higiénica e purificadora do nosso aberrante e lamentável passado imperial. Mas enganei-me de forma absoluta. Guta Moura Guedes, em meu entender, escreve um texto magnífico que ajudará os menos versados sobre o monumento e o que ele significa, a compreender cada um dos elementos que o compõem. Uma das afirmações de desconcertante simplicidade: “A sua beleza vem da sua forma e rasgo, mas também do que simboliza”. E um pouco depois, reafirmando a sua ideia de ”abrir caminhos para ir ao encontro” – a palavra “encontro” é essencial no seu texto e nela assenta o sentido último da crónica – explicita o seu pensamento deste modo: “Talvez seja esse o motivo pelo qual me emociono sempre que ali estou, perto daquela obra invulgar, porque revendo a história vejo acima de tudo o presente e o futuro de um país que sabe sair de onde está para ir ao encontro”. Que bonito e, ao mesmo tempo, que ousado! E acaba por louvar o Padrão dos Descobrimentos de novo com grande simplicidade, referindo que a “perfeição da sua construção impõe-se como obra inspiracional e arrebatadora, num trabalho em pedra portuguesa ímpar”. Noutras circunstâncias ficaria possivelmente desapontado. O primeiro impulso estaria na expectativa da leitura de mais um protesto indignado visando o braçado de criaturas que de vez em quando vandalizam e destroem bustos, estátuas ou proclamam, como em cruzada regeneradora do nosso passado histórico, a necessidade de apagar de modo radical as barbaridades que andámos a praticar maldosamente por esse mundo. E então esta crónica de Guta Moura Guedes viria certamente dar adequado tratamento ao deputado da AR que reclamou a demolição do monumento. Nada parecido. Guta Moura Guedes, numa atitude própria das pessoas (pouco abundantes) que habitualmente designamos como ostentando grande “classe”, ignorou absolutamente o deputado. Como, implicitamente, sem usar uma vírgula que fosse, reduziu à nulidade total, todos aqueles que integram a detestável estirpe dos que, como ele, encaixam numa forma vergonhosa de tratar Portugal. Neste contexto, faço um enorme esforço para não entrar na onda das vulgaridades que o deputado mereceria, mas reconheço que Guta Moura Guedes tem o direito de exigir alguma elevação num comentário desta natureza. Mesmo que jamais leia uma única linha do que aqui fica escrito. Para além da inestimável generosidade de nos transmitir em descrição tão elegante a riqueza do Padrão dos Descobrimentos, Guta Moura Guedes comprova mesmo que o que está aqui em causa é uma questão de bom senso e de bom gosto. Como escreveu o nosso Antero de Quental. Vou passar a estar mais atento à página do Design da Revista do Expresso.

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