Ingratidão

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Sabem o que é ingratidão? Já a sentiram na pele? A ingratidão é uma coisa muito feia. Asquerosa. Nojenta. Pulula por aí a céu aberto, qual lixeira mal cheirosa, mal organizada, com a diferença que, esta dá-nos a oportunidade de nos desviarmos, pular caminho, a outra, a ingratidão, atinge-nos brutalmente, bala que não mata mas dói muito, levando-nos a esperança, a confiança e o abandono dos sonhos, que nós um dia tivemos em relação ao amigo.

A ingratidão consegue atingir-nos por trás do nosso auto-controle e segue em frente, despreocupada, a danada.

Pode-se suportar muita coisa. Penso que tenho arcaboiço para tal, visto que a vida me tem posto à prova bastas vezes e eu, sempre rija, ultrapassando reveses, saltando barreiras, olvidando mentiras e maldades, tentando entender deslizes, auxiliando quem não merecia, mas, por favor, ingratidão… poupem- me ! Não me retribuam com essa coisa nojenta. Não tolero. É como uma nódoa daquelas que não sai mais. Por mais produtos que apliquemos, ela continua intata. A infeliz!

É por isso que eu não perdoo nem esqueço. Bem me tenho esforçado, mas ela cai e não sai mesmo. Dia destes, na ânsia de encontrar um certo álbum, acabei esbarrando com um outro muito velho, fotos a sépia. De início senti algo estranho, sem que tenha entendido porquê. E foi o meu “faro” que me veio trazendo à lembrança recordações, caindo por ali, quais folhas secas no outono.

Lá estava contada a história de tanta perda estranha, tantos adeuses para sempre. Ali estavam eles ,risos felizes, abraçando-me, talvez sem nunca imaginar que um dia ficariam aprisionados no papel brilhante, continuando a enviar seus sorrisos mesmo depois da partida.

Não foi à toa que escrevi o parágrafo acima, mas sim, porque naquele álbum estava incluída a foto dum familiar, que já partiu também e consigo levou a ingratidão. Muita ingratidão. Será que lá, sei lá onde, se livrou dela? Que Deus me perdoe, mas ainda hoje carrego esse peso. E, ao mesmo tempo tenho pena, porque tudo poderia ter sido diferente!

 Antigamente não havia tantos canalhas como hoje. Simples praticantes. Aspirantes a… E, se existiam não espalhavam terror. Conheci um que era doce e enternecia. Roubava aos ricos e sorrateiramente deixava aos pobres. Eu, criança, achava que ele era um herói. Era. E não era ingrato. Pobre, mal formado, mas um homem que procurava à sua maneira, praticar as pequenas delicadezas da vida, sem ao menos conhecer o valor das suas acções.

Como eu considero as pequenas delicadezas da vida! Que afinal se podem reduzir a bem pouco! Não bens materiais.  Pequenos gestos que vem até nós e nos falam ao coração. Por vezes até nos levam a esquecer as intempéries que a roda da vida nos vai entregando.

Dou graças a Deus por ter recebido, vida fora, muitas e muitas delicadezas que atenuaram o sabor amargo das ingratidões. E, curioso, donde menos se espera, mais ingratidão nos é oferecida. Vem dos amigos, amigalhaços, que convivem connosco, sentam à nossa mesa, fazem-nos crer como seria bom termos metade da bondade daquela que eles aparentam ter! Invadem- nos a casa, farejando sempre o que lhes interessa. São os penetras da nossa solidão. Dão ares de pluralismo e equanimidade,  emitem partículas de amizade.

São estes falsos amigos que se eclipsam nas ocasiões difíceis, na doença, na dor. E porquê? Porque são ingratos e os ingratos não são amigos dos doentes, padrinhos das infelicidades, primos das tristezas, tão pouco conhecidos dos pobres.

Quando me vem à cabeça a lembrança de ingratidões, procuro camuflá-las , relembrando as tais pequenas delicadezas da vida . São centenas delas, creio. E quanto menores, mais valor lhes dou.

Estou lembrando o elefantezinho de perfume que o pai trouxe escondido debaixo do chapéu. Os bilhetinhos carinhosos que a mãe escondia no meu quarto, aqui e além para me surpreender. O cachorrinho que o sr.Jorge, nosso empregado,  me colocou nos braços no dia do meu aniversário ( cinco ou seis anos, teria eu). O lanche que um aluno pobre repartiu comigo, em dia de chuva ( pão com azeitonas). Em Lisboa, a vizinha Lourdes esperando, altas horas da noite que eu chegasse dos Açores. O cadeado para uma mala que um desconhecido me cedeu num aeroporto da vida. Os bonecos feitos de almofadas, pijamas, toalhas, sei lá, que um egípcio sempre deixava no meu quarto .Naquele avião, mau tempo, aterra,voa, faltou a comida e a senhora a meu lado dividiu uma bolacha comigo. O elogio de qualquer pessoa, naquele dia em que saímos à rua com humor de cão, cara amassada. Aquele telefonema distante, acompanhado duma gargalhada cristalina. O abraço que fala, atenua dores, sofrimentos, tristezas.

Tal como aquele saber ouvir, calado, simplesmente ouvindo, desabafos, dores, sofrimentos, é uma beleza…  A pessoa que tem o condão de saber ouvir, talvez nem imagina o alívio que está transmitido ao outro, usando o processo de “ emprestar o ouvido”, como dizem os brasileiros.

Tudo isto são pérolas que embelezam a nossa vida. Ajudam a superar tristezas e dores. Agora, ingratidão, nunca! Ingratidão é uma sujidade da alma. Sufoca-nos. Entorpece-nos. São feridas formando uma colecção de cicatrizes, para a vida. É a asa d´anjo negro,  tatalante, perseguindo-nos. O ingrato é uma “ coisa” que nem pode ser adjetivada. Porque ele deixa de ser gente, nem animal é. Causa náuseas e repulsa.

 Que me desculpem o arrazoado, mas como talvez já disse, falando, alivia. Afasta a noite da nossa alma. Mata os morcegos das nossas insónias, atenua o desabar das arestas da vida e resta-nos uma leveza saudável.

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