Confusão não gera confiança

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Decorreu no início de abril a visita estatutária do Governo Regional à vizinha ilha do Pico, a qual deve merecer a nossa maior atenção, por diversas razões.

A principal é obviamente a proximidade geográfica destas duas ilhas, Faial e Pico, que faz com que qualquer investimento ou ação tenha repercussão em ambas as ilhas. Esta proximidade devia ser encarada como continuidade e os investimentos públicos deviam ser verdadeiramente inteligentes no sentido de se encarar estes territórios insulares como contínuos.

Assim, deviam evitar-se investimentos redundantes, a não ser os essenciais, e privilegiar os investimentos complementares. Deste modo, julgo que estas duas ilhas estariam mais desenvolvidas com as mesmas verbas que têm sido gastas.

Contudo, se analisarmos o comunicado do Conselho Governo, vemos que as ações e medidas tomadas são de gestão corrente, não tendo nada de novo e de estruturante, exceção feita a um investimento privado de criação de um Spa.

No entanto, neste mês de abril e à margem deste comunicado, têm sido tornadas públicas tomadas de posição estratégicas que têm mexido com o Pico e consequentemente com o Faial, e cujo impacto na nossa economia devemos analisar.

Refiro-me primeiro à ausência de tomada de decisão da transportadora aérea regional em efetuar mais um voo semanal para o aeroporto do Pico. Afinal – e perguntam bem os nossos empresários da vizinha ilha – para que se fez tanto investimento no aeroporto, para que serve a região ter uma companhia aérea, como se justifica milhões de euros para novas rotas, se não se toma uma decisão firme para mais um voo semanal?

Não se aposta em mais uma rota para uma ilha que é património mundial da UNESCO, que foi classificada pela National Geographic Magazine como uma das melhores ilhas do mundo, que possui inúmeros produtos de animação turística. Desculpem, mas não faz mesmo sentido.

Atirar agora responsabilidades para o Governo de Lisboa fica muito mal a quem diz que quem manda nos Açores são os açorianos, pois o Governo regional tem a faca e o queijo na mão para resolver este problema.

Entretanto, os empresários de vários setores vão adiar as suas expetativas, principalmente as do turismo.

Outro assunto, embora assinado na Horta, que mexe não só com Pico mas também com São Jorge é o das embarcações marítimas de passageiros. Os comentários são os mesmos: só agora?! Faz sentido a prioridade política de quem aluga embarcações caríssimas que navegam com poucos passageiros e só depois providencia barcos modernos para o Triângulo, onde circulam 400 000 pessoas?

Convém registar que nenhum estaleiro regional ou nacional se apresentou ao concurso para a construção das embarcações; estão escaldadas do processo do Atlântida…

Se analisarmos todos estes factos numa perspetiva económica é de ficar de rastos, pois as maiores medidas tomadas para estas ilhas levam os nossos euros para fora da Região e muito dele para fora do país.

E não é ironia quando proponho estaleiros navais regionais, pois numa região arquipelágica e marítima como a nossa devia-se ter trabalhado naquilo que se promete, em fazer parar as importações, em produzirmos aquilo que importamos, e no caso da indústria, mesmo a ligeira naval, com tantos euros vindos de fora para, por exemplo, a renovação da frota de pescas, não fazia sentido ter-se promovido atempadamente o estaleiro naval na ilha do Pico, para a construção e manutenção destas embarcações, em vez do dinheiro sair todo da Região?

Se há uma aposta em transporte marítimo de passageiros e de cargas é mais uma razão para desenvolver este setor. Se temos desemprego é porque não tem havido secretários da economia da área económica, é devido a políticas destas, economicamente disfuncionais e propensas ao gasto, procurando resolver o problema com dinheiro, gastando sem gerar riqueza na terra.

A cereja em cima do bolo deste mês de abril foi o cancelamento da construção das embarcações para o transporte marítimo regional, demonstrando desde logo que o ex-secretário regional e atual candidato levou 4 anos para decidir sobre este assunto…e vamos continuar a gastar???

Em suma, é preciso urgentemente uma política que potencialize as oportunidades e os recursos que temos ao nosso dispor, para gerar mais valor acrescentado à nossa economia. Nós conseguimos fazer tudo, desde que não nos tirem o tapete.

E devemos saber para onde vamos e com o que contamos, pois tanta indecisão e falta de tomada de posição coerente não gera uma coisa fundamental na economia: confiança.

PS: Considerando a relação com o jornal Tribuna das Ilhas, não quero deixar de prestar uma homenagem ao professor Fernando Melo, a quem recordo particularmente em dois momentos distintos. O primeiro quando pertenci à direção da associação empresarial e o tive como acompanhante atento e crítico construtivo; num segundo momento, quando referi que já tinha escrito e terminado a série de artigos neste jornal sobre as bases económicas, me respondeu que tinha lugar para continuar e a justificação que me deu para continuar a escrever jamais esquecerei… Um muito obrigado.

 

 

 

 

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