CONVERSA FIADA…

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Acordei alta madrugada, sem conciliar o sono e muito contra minha vontade as gavetinhas da memória se foram escancarando dando azo a uma desorganização tremenda. Meu Deus, como seria óptimo ter ali por perto algo ou alguém que conseguisse dar um ar de organização, fechando as malditas, que mais pareciam uma reunião de coscuvilheiras. É que não é fácil gerir muitas vidas pela madrugada. Se uma dá um trabalhão, imaginem!
E, naquela tremenda barafunda me recordo d´algo que li haverá séculos e que para mim é hoje sinónimo daquilo que me diz respeito. O seguinte: Cai a chuva miudinha – cai aquela desalmada – pobre da minha vizinha- pobre dela coitada – vai de casa para a vinha – vem da vinha encharcada. E eu, então, plagiando o autor, pensei: Cai a dor agudinha – cai aquela desalmada – pobre da Antonieta tadinha – pobre dela coitada – vai da consulta à farmácia – vem da farmácia acabrunhada.
Acabrunhada, sim. Porque os medicamentos que ontem tratava por tu, hoje são ilustres desconhecidos. Uns travestiram-se. Outros mudaram de nome. Outros tem dois nomes. Uns para quem tem boa visão. Outros para quem traz óculos. Uns destes serão os genéricos. E quais? Não quero falar nisso, possivelmente daria ocasião a mal entendidos e eu já tenho chatice suficiente. Só me atrapalho quando quero tomar o medicamento para a dor de cabeça e tomo para outra dor. Acabou!
E as bulas? Há bem pouco tempo as bulas eram maneirinhas, jeitosas, davam meia dúzia de informações reduzidas, qual telegrama. Uma delícia|
Hoje não. Donas bulas crescem dia a dia, género livros de José Rodrigues dos Santos. E por atrevimento ainda nos pedem para enviar outras indicações. Afinal somos doentes ou escritores? Não perceberam ainda que se há um ser humano neste mundo que leia aquilo, nunca mais entrará à porta duma farmácia. Acho preferível desistir de tomar a medicação do que ter de enfiar na cabeça aquela enciclopédia de indicações e contra indicações. Um terror| É tal e qual como ser atacado por um terrorista armadilhado|
Embora eu julgue que o meu Q.I seja elevado não consigo entender a razão por que muitas pessoas carregando a medicação vão dizendo que é para fazer bem à dor. Ora, isto é pura ignorância, porque se o medicamento faz bem à dor, ela, a dor, ficará contente com esse bem e não o larga mais o tempo todo.
Entenderam? Pensem comigo| Se lhe dói a cabeça peça ao médico um medicamento que faça mal à dor e então a dor chateada desaparece e a cura aparece. É o milagre. Prestem atenção que eu não repito isto, fruto do trabalho de neurónios inteligentes, amigos e que merecem todo o meu respeito.
E agora rapidamente aconselho a não se acumular medicamentos em casa. Eles são nossos inimigos figadais. Não se jogam no lixo. Não se oferecem a ninguém. Não se olha para eles de frente. Seria dar confiança. Não se adquire medicamentos de candonga. Será como ir à feira de Carcavelos comprar por cinco euros uma peça feita ARMANI que na avenida da Liberdade custa quinhentos. É muita ideotice|
E por último. Quando se vir rodeado de paletes e paletes de medicamentos, convide os amigos e mande cremar. Será mais bonito que o fogo de artificio de Budapeste que dura dois dias e duas noites sem interrupção. Sei lá o que andará naqueles céus, mas que é lindo de morrer é. Aposto no entanto que fogo de genérico, só poderá ser um nojo|
Obs: Agradecia o contacto de alguém que tenha tido a coragem suficiente para ler a bula todinha e depois se tenha sentado a tomar a sua cápsula sem culpas.

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