Corvo – a liliputiana ilha

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Atravessamos as 15 milhas que separam as Flores do Corvo, viajando num dos barcos “semi-rígidos” de Elisiário Cristino, e é como se eu partisse em busca do pote de ouro para lá do arco-íris…

Pelo menos é nisto que penso ao apreciar as falésias cortadas a pique da costa norte da ilha das Flores, navegando bem junto de cavernas, furnas e grutas que serviram outrora de esconderijo a piratas… Não haverá por ali esqueletos de barcos afundados? Tábuas inchadas do naufrágio? E, quem sabe, algum tesouro escondido?

Em vez disso cruzamo-nos com golfinhos que parecem desafiar-nos a mergulhar com eles… O entusiasmo cresce dentro da embarcação e todos filmam e fotografam os espetaculares movimentos dos roazes…

 Arpoamos agora à ilha do Corvo, que à distância é um rochedo negro, na base do qual se ergue a Vila Nova do Corvo que recebeu foral de D. Pedro IV, em 1832.

lIlha do Corvo, Ilha dos Corvos Marinhos, Ilha do Marco, Ilha da Estátua, Ilha do Farol, Ilha de São Tomás, ou Ilha Negra – é a menor das ilhas do arquipélago dos Açores e a última a ser povoada. Tem 6,5 Km de comprimento e 4 km de largura, albergando uma comunidade com pouco mais de 400 almas… “Mas temos mais de mil cabeças de gado”, diz o motorista da carrinha que nos espera sobre o cais.

Uns rochedos na costa ocidental da ilha (no sítio hoje denominado de Ponta do Marco) criaram a lenda de uma estátua equestre em pleno mar. Vários cronistas, entre os quais Damião de Góis, falaram de um cavaleiro a indicar à navegação o caminho do Novo Mundo…

Desembarcamos e a realidade é outra. Constituída por um só concelho e uma única freguesia, é na Vila que se concentram todas as habitações. As ruas são estreitas (por motivos de solidariedade e de defesa contra as adversidades de outros tempos) e calcetadas, as casas brancas e dispostas em anfiteatro, sendo que algumas, em alvenaria, mantêm a traça antiga.

Até ao século XIX o Corvo esteve condenado a um regime feudal. Mouzinho da Silveira, então Ministro e Secretário de Estados dos Negócios do Reino, emancipou a ilha da opressão política, administrativa e financeira. Também a elevou à categoria de Vila como município independente das Flores. Desde então a vida na ilha do Corvo tem vindo a organizar-se à margem dos poderes políticos, religiosos, económicos e militares. Ou seja, por via do secular isolamento, os corvinos souberam criar o seu próprio modo de vida.

Entro na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, padroeira da ilha, e detenho-me sobre a imagem – escultura flamenga do século XVI achada no mar. Diz a lenda que fez um milagre extraordinário: quando piratas turcos bombardeavam a ilha em Junho de 1632 para sequestrarem a população, esta foi buscar a imagem à igreja e colocou-a na Canada da Rocha, virada para o invasor. A Santa abriu, então, as mãos e as balas, batendo nelas, voltaram para trás atingindo os que as disparavam. Os piratas puseram-se em fuga e dizem alguns cronistas que o relato deste prodígio chegou aos ouvidos dos governantes do Reino.

Continuo a deambular pela Vila. Lá está a pista do aeroporto em toda a sua extensão e em nítido contraste com os belos moinhos de pedra. Visito a Câmara Municipal e a Biblioteca Pública (com dez mil volumes) e asseguram-me que não há analfabetos no Corvo. E há a Casa do Povo, um jardim de infância, uma escola, uma unidade de saúde, uma farmácia, um gasolineiro, duas mercearias, um restaurante, um café-lanchonete, serviços de notariado, registo civil e predial, uma repartição de finanças, correios, bombeiros, uma banda de música, um grupo folclórico… Mais recentemente, um espaçoso semi-coberto e um imponente edifício multi-usos dão um toque de modernidade à Vila. Passo pela Casa do Espírito Santo (construída em 1775) no Largo do Outeiro, fundado em 1871, outrora centro de todas as decisões. Para adquirir produtos locais (uma fechadura em madeira e um queijo), subo e vou ter à casa do artesanato e à queijaria. 

Mas não sou turista, sou viajante – e é chegada a altura de visitarmos essa epifania vulcânica que dá pelo nome de Caldeirão, situado no ponto mais elevado da ilha. Chega-se lá por uma estrada empinada e sinuosa que nos leva até a uma altitude máxima de 718 metros. Suspendo a respiração, pois estou perante uma descoberta avassaladora. Um espetáculo de luz e magia, de transparência e serenidade apodera-se dos meus sentidos. Recortado por hortênsias, o Caldeirão abrange um perímetro de 5 km e tem 300 metros de profundidade. Algum nevoeiro desce devagar dos bordos e afaga a colossal paisagem que ganha todos os tons de verde e se modifica a todos os instantes. À superfície das águas vêem-se pequenas elevações que, geralmente, são consideradas uma representação do arquipélago. Aquilo só pode ser o Lago dos Sonhos. O silêncio pesa e toda esta beleza me entra em jorro pelos olhos dentro.

Tal como as Flores, o Corvo também integra a Rede Mundial de Reserva da Biosfera, por decisão da UNESCO tomada a 20 de Setembro de 2007.

Esta ilha (que vive da agricultura, pecuária e pesca rudimentar) rima com solidariedade, comunitarismo, afetividade, dignidade e delicadeza. Raul Brandão sabia do que falava quando, no seu livro As Ilhas Desconhecidas, escreveu: “Nunca vi como nesta ilha tão extraordinário sentimento de igualdade. O Corvo é uma democracia cristã de lavradores”.

Descemos à Vila, pois é tempo de regressar às Flores. Cai uma inesperada chuva e o céu forrou-se de nuvens surrealistas. Em cima do cais, o sr. Fraga torce o nariz e diz-me: “O mar está a ficar alceirado…”. 

O corvino tinha razão. A meio canal somos surpreendidos por uma forte ondulação e por um vento inusitado de Agosto. Mas entrego-me à viagem, pois sou nauta e sei que “navegar é preciso”. E chego a Santa Cruz contente mas… ensopado da água do mar.

 

Victor Rui Dores

 

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