Ser rico não é sinónimo de ter dinheiro. Ser rico é ter alegria, ter trabalho, gostar de trabalhar, família unida, saúde, amigos, pessoas que nos entendam, aconselhando, respeitando, ajudando, elogiando ou mesmo criticando, perdoando. Sempre com intenção de nos saber felizes. E felicidade é um bem que não se compra. Adquire- se simplesmente à custa de muito esforço e compreensão, vindos à conta da nossa maneira de lidar com os outros.
Ser rico é olharmos para nós próprios e sentirmos a nossa consciência tranquila. Não que tenhamos jogado fora os problemas, mas que tivéssemos sabido lidar com eles, afugentando fantasmas, malquerenças, a ponto de ser possível deitar a cabeça na almofada com tranquilidade e dormir qual múmia de Tutankamon.
No mundo atual em que toda a gente reclama com ou sem razão, para quê tanto desespero, se afinal esse desespero é que traz maior infelicidade? Ele é capaz de virar um dia ensolarado, num dia triste, quando, afinal, com um pouco de coragem, podemos empilhar uma carrada de esperança no sitio donde saiu um vendaval? A estrada é infinita.
Não se pode ser rico se não soubermos contornar vicissitudes que a vida oferece. Há que entender e ultrapassar o sofrimento que nos é colocado na frente a toda a hora.
O país está numa desarrumação total. Uma verdadeira babilónia. Ninguém consegue dar-lhe tafulho. Escusado será, então, procurar a dignidade, o escrúpulo, a verdade, porque não há. Com uma casa bagunçada, agora é uma balbúrdia e, como acontece no meio de gente pouco civilizada, suja e desarrumada, brincam ao empurra. Agora limpas tu, agora limpa ele. E o lixo crescendo!
E enquanto eles brincam às apanhadas e às escondidas, mentindo e mentindo muito, sentimos as nossas cabeças prestes a explodir. Ninguém aguenta. Ninguém merece. Dia a dia, tudo muda. As reformas, as pensões, os impostos sobem e descem constantemente. Os subsídios dão- se hoje, tiram-se amanhã. Os horários de trabalho são uma trafulhice pegada. O desemprego vai aumentando e quem não estiver bem que se mude. O senhor ministro vai recomendando aos jovens que partam do país, caminhem contra o vento, sem euros, sem emprego, sem futuro, sem lenço para secar a última lágrima. E quantos vão, frases não ditas, palavras engasgadas, adeuses de mãos entrelaçadas e entre eles o abismo infernal que muitas vezes perdurará até à morte, num ruído de reverter o pó.
Agora ninguém se entende, bem como nós não entendemos ninguém. E não confiamos. Nem acreditamos. Estamos pelos cabelos. E eles continuam, quais crianças de escola a discutir quem ganhou a quem. Só falta a bofetada. E, nós do outro lado, a berrar: ai a crise, ai a crise, ai a crise! Como saídos duma novela mexicana!
Gostaria que um dia o primeiro ministro ou mesmo um qualquer dos outros, frente às câmaras da tv , falasse dos seus honorários, dos seus descontos, das suas propriedades, dos seus carros, das suas viagens, da sua vida pobre e miserável! Não a título de mexerico, mas para dar oportunidade de os lamentarem, quem sabe mesmo, verter umas lagrimazitas de dó, sentir compaixão deles.
A sério, mesmo a sério, estamos envolvidos numa trama nojenta. Sem saída. E isto é que é o problema mesmo. Pobreza geral. Quem ontem ouviu falar José Eduardo dos Santos, por muito dinheiro que tenha, deve ter-se sentido inferiorizado, e enfiado num poço de lama, sem saída. Pelo que ele disse e pela razão que lhe assistia. E como ele, tantos outros, como a Índia, nas tintas para Vasco da Gama.
E a culpa é de quem? Sinceramente, não é da Troika nem do FMI. É certo que já gracejei com eles, mas não os considero culpados de nada. Limitaram-se a confiar em quem não deviam. Acontece a muito boa gente! E, por falar em gente, agora que os mercados estão abarrotados de produtos light, será que não é possível aparecer pessoas light?
Em criança, vivi rodeada de gente pobre, que, trabalhando de sol a sol, era feliz. Afinal eram ricos, não se ouviam queixas, lamentos, lágrimas, nada!
Viviam em casas pobres, toscas, que eles construíam com ajuda de vizinhos e amigos. Sem grandes confortos, sem “coisas”. Os homens eram agricultores e pescadores quase todos. As mulheres cuidavam da casa, dos filhos, que por vezes excediam a dezena. O trabalho era imenso porque até o pão dependia da azáfama delas levando o milho ao moinho, à cabeça e um ou outro filho pequeno a tiracolo.
Andavam quase sempre descalços ou com uma espécie de sapatos chamados albarcas, roupa com remendos, enfim… Os filhos iam à escola e nos tempos livres ajudavam os pais. Não conheciam então a tal “ exploração infantil”. Não tinham tempos livres. Nem dinheiro. Eram educados e respeitadores. Nunca ouvi deles um palavrão. Não se alcoolizavam nem drogavam. Não havia tv, telefonia, computadores, mas acredito que seus serões seriam certamente mais simpáticos que os d´hoje , cada qual isolado com o seu programa.
Os homens pagavam ao estado uma pequena contribuição, penso que anual. Não reclamavam nem exigiam. Assim o estado. Estava lá tranquilo. As crianças recebiam de vez em quando algumas moedas para ir à mercearia comprar o básico: petróleo, sabão, açúcar, sal. E lá vinha a recomendação: mãos bem lavadas porque o dinheiro é sujo. Atualmente é o contrário. Há que lavar o dinheiro, a dita lavagem, porque as mãos, quanto mais sujas melhor. Conhece, por acaso, algum rico com as mãos lavadas? Não sei, estou perguntando!
Deixo aqui uma ideia daquelas. Regressámos às cavernas. Ontem. Portugal acabou. Foi-se. Hoje.











