DOS OCEANOS AO MAR DOS AÇORES

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 Desde os primórdios da Humanidade que o homem procurou apanhar peixe ou outros animais cujo habitat era o Mar. Tratou-se de uma questão de sobrevivência. Para tal, com arte e engenho, utilizou anzóis, arpões, redes, armadilhas ou ainda outros meios que eram comuns a todos independentemente da raça, da nacionalidade ou do local ondem viviam. Dos primitivos anzóis de osso e mais tarde de ferro ou, como hoje, em aço inox as formas e tamanhos foram sendo adaptadas à pescaria que se pretendia fazer. Por outro lado, os fios utilizados evoluiram muitíssimo até se chegar aos practicamente invisíveis na água, cada vez mais finos e resistentes, sendo com estes que hoje se pesca ou faz redes. As armadilhas ou cofres que eram de barro ou feitas com canas e paus, hoje são, tal como os fios, de material practicamente insolúvel na água. Na Ilha Huahine, mesmo com a pouca amplitude das marés, aproveitando um canal, os pescadores mantém até os dias de hoje uma espécie de labirinto ancestral construído com pedras, onde os peixes com a maré de vazante ou enchente ficam presos. No Atol Takaroa à entrada da passagem (única entrada e saída de água) construíram com corais uma cerca onde o peixe com a maré de enchente entra ficando preso com a baixa mar. Nos Açores as artes de pesca mais utilizadas são, para as pequenas embarcações, linhas de mão que consistem num fio principal, a partir do qual são amarrados os estrovos e na extremidade destes os anzóis, que podem ser desde 2 até 40 ou 50, ou mesmo mais, constituindo o aparelho (gorazeira), que por sua vez encontra-se preso desde o fundo até a embarcação pelo fio de pesca, que em alguns casos é metálico (arame) e para as de maior porte, que se dedicam à pesca de fundo, o troly ou long line formado por uma linha principal, por vezes podendo ter entre 4 ou 6 milhas de comprimento, a partir da qual são amarrados milhares de estrovos com anzóis, cujo tamanho varia de acordo com a pescaria pretendida. As embarcações que no passado recente pescavam chicharro e cavala com enxalavar, quase todas estão, como no caso da Ilha de São Miguel, armadas com redes de cerco, que pescam grandes quantidades destes pequenos pelágicos. As nossas Ilhas não têm plataforma ou se tem é muito pequena e só em alguns sítios. A ZEE dos Açores que já foi de 200 milhas, agora está reduzida a metade e é nesta que se situam alguns dos baixos outrora ricos em diversas espécies de peixe (cherne, goraz, boca negra, imperador, etc), hoje por força do grande aumento do esforço de pesca encontram-se quase todos altamente sobre explorados. As centenas de milhares de anzóis que tem sido lançados indiscriminadamente utilizando o troly ou long line de fundo, mais as toneladas de cabos e monofios que se perdem nos fundos têm contribuído para a autêntica desgraça que hoje se verifica em practicamente todos os locais de pesca, incluindo as costas das Ilhas. De referir ainda que algumas embarcações usaram redes de emalhar de fundo e à medida que ficam perdidas para além de continuarem a matar peixe, constituem-se num sério problema de ordem ambiental e para os pescadores que, em muitos locais, devido a quantidade de redes, cabos ou mesmo cofres não conseguem pescar, pois os anzóis neles ficam presos. Tinhamos muito peixe, de boa qualidade, e ao contrário do que se pensava os Açores, pelas razões já referidas, não oferecem as condições ideais para o “repovoamento” dos stocks. Sendo o goraz uma das espécies mais valiosas, foi a que nos últimos anos teve maior procura e a par do cherne representou importante fonte de receitas para o sector pesqueiro. Todavia, esta “riqueza” deveria ter tido a proteção necessária, nomeadamente com a limitação das licenças de pesca para algumas embarcações que utilizam o troly ou long line, não sendo de excluir as que foram na nossa Região adquiridas por espanhóis que estão a rapinar o pouco que nos resta.

 

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