E o Banco pariu um Rato

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Em Setembro de 2012 publicava-se no FAZENDO um texto que começava assim:

“É verdade. O Banco de Portugal da Horta deixou definitivamente de garantir poupanças, atribuir empréstimos, cobrar juros e saldar créditos mal parados. Depois de um período de hibernação indefinida, despertou, mudou de nome e vai começar a dar. Dar tudo para que a cidade e a ilha continuem a crescer culturalmente num ambiente de partilha.”

E, inocentemente, acrescentava:

“No início de 2012, a Empresa Municipal Hortaludus em conjunto com a Câmara Municipal da Horta, lançou o desafio às várias Associações culturais da ilha: elaborar uma proposta para dinamizar o Banco de Portugal… Três Associações (FAZENDO, Teatro de Giz e Música Vadia) apresentaram um plano concreto que assentava em duas vertentes: 1) a da apresentação de produções (próprias ou não) e iniciativas ligadas às artes e 2) a da formação em linguagens artísticas diversas. Paralelamente, em conjunto com aquelas entidades, fizeram um levantamento da planta do local e definiram as intervenções físicas que o espaço deveria sofrer de forma a que, com um custo mínimo, se pudessem ter as condições necessárias para desenvolver os trabalhos. A proposta foi aceite e o Banco passou a ter novo apelido – BANCO de ARTISTAS.”

Dois anos volvidos impõe-se voltar aqui para dizer a quem se interessa por estas coisas que, afinal, o Banco pariu um Rato. Isto é, o Banco de Artistas transformou-se em fumaça. Ou apanhou a Sata, vá. Ou parecia que sim mas afinal já não. Confusos? Também nós! Mas expliquemo-nos.

Em 2012, a Câmara Municipal da Horta (CMH), através do Vereador da Cultura e da Administração da então Hortaludus, fez crer às três Associações (entretanto apoiadas, reconhecidas e até enaltecidas, com direito a medalha, pelo Governo Regional e pela CMH) que estava interessada em ter colaboradores com provas dadas nesta matéria (como lhes apraz dizer) para dinamizar o espaço do Banco de Portugal.  As Associações arregaçaram mangas e organizaram no decorrer da Semana do Mar desse ano um programa cultural para crianças e adultos no espaço exterior do Banco. A custo zero para a CMH. Houve jogos tradicionais, avós a contarem histórias, formações em teatro e dança, mostras de documentários, música ao vivo, biblioteca infantil e outras coisas mais. Passaram por lá 100 crianças e mais de 500 adultos que assistiram e participaram, muitas vezes em conjunto, numa iniciativa diferente e, arriscamos, interessante. Uma proposta a aprimorar em futuras edições mas que, nas palavras de alguns dos responsáveis do município e de diversos cidadãos, provou ser digna de repetição…

Posteriormente, e sempre em estreita concertação com a CMH e o seu vereador (foram várias as reuniões conjuntas), preparámo-nos para a inauguração do espaço propriamente dito (o interior). Foi escolhido o dia 3 de Novembro de 2012 para o efeito e estruturou-se uma agenda que previa um discurso de abertura do Sr. Presidente da CMH, uma exposição permanente do espólio do Teatro de Giz, uma exposição de instrumentos tradicionais construídos no Faial, um monólogo de teatro, um pequeno concerto e a apresentação do calendário de actividades anual, que incluía aulas semanais de instrumentos, oficinas de teatro, oficinas de artes plásticas, oficinas de construção de instrumentos e as actividades previstas para a Semana do Mar de 2013.

Nos entretantos, era necessário pintar paredes, rever o sistema eléctrico do edifício, resolver problemas de infiltrações, melhorar a acústica do espaço, enfim, garantir os mínimos para um funcionamento adequado. Por razões alheias às Associações (que foram muitas vezes para o local contribuir com o seu trabalho), o tempo foi-se dilatando, instalando, passou o dia 3, o dia 10, o dia 30, e entrámos no ano seguinte… Disseram-nos que a inauguração ficava adiada para data a definir, mas que o melhor era ir fazendo alguma coisa, dentro do possível, claro está. O compasso de espera foi-se espreguiçando e as Associações, com o conhecimento da CMH, decidiram avançar com algumas iniciativas: a Música Vadia inaugurou a exposição de instrumentos tradicionais do Faial no princípio de Abril de 2013, com mais de 20 cordofones construídos por artesãos da ilha; o Teatro de Giz planeava a exposição do espólio da companhia de teatro italiana Piccolo di Milano, que lhe foi ofertada aquando do episódio do naufrágio do navio CP Valour e que esteve na origem da longa metragem realizada por Zeca Medeiros (e co-produzida pelo TG com a RTP Açores); o FAZENDO planeava um ciclo de mostras de cinema documental para quando estivesse concluída a insonorização de uma das salas de baixo.

2013 trouxe também com ele algumas alterações significativas, primeiro na Administração da Hortaludus EM,  que até então sempre tinha apoiado o trabalho das Associações, e depois com a gestão de sobrevivência da mesma em virtude da anunciada fusão com a UrbHorta.

Neste cenário de impasse surge então o primeiro indicador de mudança. O Sr. Vereador da Cultura, ao apresentar o programa preliminar da Semana do Mar numa conferência de imprensa a 27 de Maio, afirma que o espaço exterior do Banco de Artistas será ocupado por uma empresa local, que instalará um parque de insufláveis, e que no interior do Banco decorrerão algumas exposições temáticas. 

Ainda quisemos acreditar que se tratava de um erro de comunicação ou semelhante coisa e solicitámos, por escrito, um pedido de esclarecimento. A resposta tardou mas chegou, e não deixava dúvidas. Em resumo, dizia assim:

“Temos consideração pelas Associações culturais mas quem manda no Banco somos nós. As Associações não apresentaram nenhum plano de actividades para 2013. Se tiverem alguma actividade que queiram fazer, comuniquem que depois logo se vê da possibilidade da sua integração no plano já definido.”

Perante tamanhas falta de lealdade e seriedade, argumentámos o óbvio: 1) há mais de um ano que estávamos a trabalhar em suposta cooperação com a CMH para criar um verdadeiro Banco de Artistas sem que isso pusesse em causa a autoridade da CMH (a nossa labuta anda longe do negócio de imóveis); 2) o Sr. Vereador tinha evidente conhecimento dos sucessivos projectos, planos, dossiês e actividades propostas, onde se incluía a programação para a Semana do Mar, que só ainda não estavam agendadas porque esperávamos respostas e acções por parte da CMH; 3) apesar disso estavam a decorrer actividades no Banco promovidas pelas Associações com o apoio da CMH e 4) conseguíamos perceber que, em ano de eleições, quisessem jogar pelo seguro mas não aceitávamos que se planificasse o Banco à revelia dos supostos parceiros culturais, nós, que sempre tivemos abertura para conciliar, integrar e arranjar forma de fazer as coisas acontecerem.

Silêncio. Esperámos. 

Passou Julho, veio Agosto e a Semana do Mar, Setembro, Outubro e as Eleições Autárquicas e, depois de alguma insistência, lá se conseguiu finalmente agendar uma reunião com o futuro Conselho de Administração da UrbHorta, que teria a seu cargo a gestão do Teatro Faialense e o Banco de Portugal e presidido pelo Vereador da Cultura.

Em Novembro acabaram-se as dúvidas. Percebemos que, afinal, a CMH faz a gestão do espaço em exclusivo (não há colaboradores) e define a agenda de acordo com propostas recebidas do quadrante ‘desportivo-cultural’. 

Perguntámos porque é que os desígnios para o Banco se tinham transmutado de forma tão evidente. Insistimos, claro, que são muitos os municípios espalhados por este país que encaram as Associações Culturais como verdadeiros parceiros, e que graças a isso conseguem definir e fazer acontecer uma coisa chamada estratégia cultural para os lugares, vilas, cidades. Pelo sim pelo não, ainda sublinhámos que a única coisa a que nos propúnhamos era gastar o nosso tempo e consumir calorias na planificação e uso de um espaço dos munícipes que serviria o crescimento e a cultura da cidade e da ilha.

Ficaram de reavaliar a situação. Disseram-nos, como naquelas entrevistas de emprego, – ‘depois entramos em contacto com vocês’. 

Até hoje.

Concluímos assim que, na nossa perspectiva, a CMH considera que as Associações, como outros agentes culturais, não passam de grupos amorfos de gente com os quais se estabelecem “protocolos de cooperação financeira ou de carácter pontual como são as utilizações dos espaços pertencentes à CMH”. Não interessa o porquê, o como, a qualidade, o empenho. O que interessa é dar-lhes uns tostões para eles fazerem as coisas deles, porque no futuro isso reverte a favor… de quem manda. Porquê? Porque sim. Porque podem. Porque não nos podem fazer bem nenhum.

 

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