Não, não vou urdir teses sobre o Natal. Já todo o mundo fez. E cansa. Minhas desculpas, mas o Natal é um assunto tão sério, que merece ser guardado com carinho no lugar mais importante do mundo. Sem alaridos, sem folclores, sem presentes, sem comezainas. No nosso coração. Sem tentar crer que as nossas vidas são sempre simpáticas e boas, quando nos comportamos artificialmente quais robôs, entrando na estória dos desgastados comportamentos felizes, convenções de alegria.
É certo que as crianças, habituadas a tanto estardalhaço , não perdoarão a falta de imensa inutilidade. E muitos adultos também não saberão abdicar desses pormenores mesquinhos, ocos, sem interesse. E tentam nesse dia, mas só nesse dia, camuflar, tendo um gesto de solidariedade.
Como eu gostaria de ver gente gostando de gente, não só no dia 25 de Dezembro! Abrindo sorrisos, jogando palavras de carinho, desejos de dia feliz, estendendo a mão com um pedaço daquilo que lhe foi permitido ter, abrindo mão d´algo que mais gostava para matar o frio doutra pessoa, acariciando uma criança descalça, oferecendo-lhe o bolo da vitrine onde ela tinha o nariz esborrachado, dando-lhe colo, estendendo os braços aos sem abrigo, ouvi-los, partilhar suas amarguras, enfim… SER GENTE!
O que acima disse não acontece fàcilmente. Afinal o Natal passou! Há mais que fazer. Que se lixem! Não estão ali por culpa dos outros. E quem terão sido os outros? Os outros, naturalmente foram a porcaria da sociedade que os excluíu, sem dó, sem piedade. E eles, quais náufragos, não tiveram uma mão para se agarrar.
Não falo assim por ser Natal. Falo e penso assim o tempo todo. E penso muito. Porque é confrangedor enfrentar crianças infelizes sem pão, sem abrigo, sem carinho, olhos tristes. Adultos ao relento, olhando a multidão anónima carregando felicidade e coisas supérfluas, olhando-os com desdém! Talvez muitos nem pensem que estão ali seres humanos, iguaizinhos. Cabeça, tronco e membros. Coração batendo. Os nossos irmãos que, naquele dia de Natal, tiveram um vislumbre de esperança! Uma triste caridadezinha que fez crescer o ego do rico. Mas que se esfumou rápido.
Isto é o que se chama mundo cão. Um mundo em que os ricos prefeririam que os pobres não existissem. Para não se sentirem culpados. Para não se chatearem. Para não se sentirem anormais. Para não dar voltas aos miolos, explicando aos seus meninos a razão por que o Menino Jesus, sendo tão bom, até naquele dia excluiu e ignorou os pobres. Porque tudo isto se torna uma contradição inexplicável. E depois vem a treta de sermos irmãos, nossos semelhantes, espelhos meus. África, Iraque, Hiroshima …
Não me alongo. Só quero deixar bem explícito que aqueles que só tem um Natal por ano, não podem ser felizes também. A maioria fica escondida atrás de sorrisos tensos, distrações vãs, bom humor programado. Será uma maneira de esquecer a complexidade do mundo, seus mistérios, suas armadilhas terríveis. Mas virão a concluir que a felicidade traz sempre um nadinha de tristeza.
Acredito firmemente que certas pessoas pensam que o dinheiro, o status, tudo resolve. E não dividem. Faltam as certezas, a coragem, o sossego, a tranquilidade de espírito. São uns desertores, que escapam, escapam e escapam, na certeza que as suas manobras limpam a visão da miséria. Mas não. Pense bem. Aquela caridadezinha do Natal não o tornou gente. Você foi um assaltante. Meta a mão na consciência!
P.S. Aos amigos, a todas as pessoas que me tem dirigido palavras de incentivo, apoio, elogios, contribuindo assim para a minha coragem de seguir em frente, os meus agradecimentos e Feliz Natal. Enfim, a todo o mundo de coração saudável, àquela gente que gosta de gente, Bom Natal. Todo o ano!











