Os homens de antigamente foram sem dúvida muito destemidos. Mas, como todo o mundo possui o seu calcanhar de Aquiles, eles tinham o deles. Eram os cabos. Sempre que topavam um cabo, era o fim da macacada.
Sabemos o sofrimento que foi dobrar aquele bendito cabo da Boa Esperança. Até lhe chamaram Cabo das Tormentas, inicialmente. Gil Eanes ao dobrar o cabo Bojador, sofreu horrores. E cabos sem fim se atravessando no caminho deles e, mais tarde, no nosso, porque fizeram parte de nossos estudos. O cabo que mais me intrigou foi o cabo Não.
Passaram os anos e eu entendi. Eles, os marinheiros, fartos de dobrar cabos, ao encontrar mais um, num daqueles dias de má disposição, gritaram em uníssono: “Mais um cabo, não!” E daí saiu o nome do infeliz! Os marinheiros devem ter passado mais uma vez as passas do Algarve, mas o que é sabido é que o Papa Nicolau V lhe achou tanta graça, que logo emitiu mais uma bula.
Naquela época os reis pouco faziam. Levavam os dias esparramados no trono, dando ordens à toa, concordando com as brilhantes ideias dos homens do mar, ou então comendo frango com as mãos, lambuzando-se, um horror! Por sua vez, os papas emitiam bulas. A torto e a direito. Uns e outros detestavam televisores, computadores e afins. Consta que o papa Sixto IV até emitiu bulas a favor dum infante já falecido. Bem, isto foi uma afirmação de Duarte Pacheco, que sendo meio maluco, não media o que dizia. Foi o tal que, certo dia, no boteco da esquina entre uns copos de vinho a martelo e umas pataniscas de bacalhau, afirmou que a Guiné era a Etiópia e que o povoamento da Madeira tinha custado muitos homens ao senhor infante. Ora, os companheiros, de telemóvel na mão fizeram a notícia correr mundo.
Falando em cabos, ficaram muito famosos. Nos nossos dias, deles nos aproveitamos para pôr ao léu o nosso estado de espírito. Exemplificando :” Não dês cabo disso”, “ Isto é o cabo dos trabalhos”, “Vou dar-te cabo da vida”, “ Já me deste cabo da cabeça”, “Aquele deu cabo da fortuna”. E por aí… Como se vê, não se encontra fàcilmente nenhum cabo sim, na nossa vida. Sempre cabos não!
Ora, é de certa importância relembrar cabos, náo só no sentido de nos pôr de sobreaviso, como no sentido de estarmos a relembrar homens bravos que dobraram cabos. Não que eu ache isso grande coisa, porque, hoje, os nossos marinheiros dobram cabos e cabos de manhã à noite, sem alarido, sem temores, sem palavrões e, melhor, não os batizam.
Estou a ver. Não acreditam? Pois não é necessário ir muito longe. Ora vejamos os barcos do canal, atracando. Lá vai cabo! Em segundos está dobrado e pronto. Sem direito a integração na história. Nem bula papal. Somos muito ingratos!
Na época que já lá vai os marinheiros não paravam em terra. O desemprego era muito, tal como hoje. Os ordenados em atraso. Os homens fugindo para o mar. Era a crise. A crise que ainda hoje estamos pagando, desde as antigas dívidas deixadas por Pedro, o justiceiro, feitas à custa da devastação de províncias por vingança e executando fidalgos por vingança ao pai, o Bravo, por ele ter ordenado a morte de Inês, a amante. E daí a trasladação de Coimbra para Alcobaça da Cruela, feita rainha após a morte, por vontade do Cruel.
E por tudo isto e muito mais as dívidas crescendo e nós, mal informados, mandando as culpas para outros, inocentes, de boa vontade, que, para remediar o mal, vão vendendo Portugal aos pedacinhos, a uns e outros, embora não tenha dado ainda p´rás despesas. Agora, porém, chineses em casa, lufada de ar fresco. Graças a Deus! E é por isso que D. Assunção pensa fazer a interdição de cidadãos portugueses às galerias nas salas de debate. E muito bem. Será pensando pôr espaço livre para chineses, quando tiver de ceder o lugar dela ao colega chinês.
Bem, voltando aos marinheiros, diria que eles resolviam os seus problemas sem auxílio de ninguém. Mandavam-se para os mares naquelas naus, galés, ficavam à sua vontade e pintavam o caneco. Iam encontrando terras e mais terras e logo entupiam os barquinhos com “recuerdos”. O que vinha à rede era peixe.
Em África foram muito longe. Excluindo a tormenta dos cabos para dobrar, carregavam as naus do melhor que por lá havia e faziam muitos prisioneiros, que depois entregavam ao rei. Este , acabava de comer os frangos, arrotava e mandava-os escravizar. E logo apareciam as bulas papais, para chatear.
E isto não foram feitos heróicos. Cativar negros na terra deles, para orgulho do senhor Infante, como fez Dinis Dias, não foi bonito, não.
Resumindo e concluindo, penso que a maior parte daquela gente sofria de cleptomania. Baldaia, tenho a certeza, pois na hora em que não conseguiu escravos, contentou-se com uma velha rede de pescador que encontrou. E isto não é doença?
Os marinheiros seriam pouco cultos. No entanto entendiam-se assim: -avs-“arte vencer cabos” Tac “ tentativa amansar cativos”. E por aí fora…
A história que nos impingiram foi uma estória levada da breca. Com pormenores esquisitos. Também havia gente boa. Destaco D. Dinis que trabalhou para o bem de todos. Distinguiu- se sob o ponto de vista político, económico, social, cultural, artístico. D. João II , foi um homem coerente e realista com a política dos descobrimentos. Não martirizou ninguém. Ao enviar Afonso Paiva e Pêro da Covilhã ao Oriente e à Abissínia colher informações, teria em mente o plano da Índia. Pena foi ter falecido sem ver os seus sonhos realizados. D. Manuel, o sucessor, encontrou toda a papa feita.
PS – Toda a história tem um interregno. Vou respeitar. Prometo.











