Eleições: mais uma leitura…

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Podia escrever hoje, no rescaldo das eleições europeias, sobre a pequena derrota dos partidos do Governo da República, que em nada compromete as aspirações nas legislativas; podia escrever sobre a pequena vitória do Partido Socialista que compromete a liderança de Seguro, como aliás se tornou já evidente; podia escrever sobre a grande derrota do PSD Açores, que afunda cada vez mais, quando é um partido que faz falta ao regime democrático na Região; podia escrever sobre a grande vitória do PS Açores, que confirma a ausência de alternativa ao poder na Região o que prejudica a qualidade da nossa democracia.

Também podia escrever sobre o crescimento significativo (mas não tão expressivo quanto se receava) da extrema-direita na União Europeia que, a par do crescendo dos eurocéticos (ocupam agora cerca de 120 assentos), ameaçam agora a prossecução do projecto europeu e que a par da extrema-esquerda, que também cresceu, dificultarão a construção de consensos indispensável no processo de trabalho do Parlamento Europeu.

Podia ainda falar da abstenção (bateu novos records nos Açores – 80,2% – como no continente – 66% –, ao contrário do que aconteceu em países maiores como a Alemanha), os vencedores tradicionais de todas as eleições açorianas para vergonha nossa e que alguns políticos querem castigar com o voto obrigatório em vez de motivar, esclarecendo. Quando governantes com responsabilidades indeclináveis afirmam que os valores da abstenção se deveram à marcação das eleições pelo Presidente Cavaco Silva no dia da procissão do Senhor Santo Cristo dão o sinal absolutamente contrário do seu dever, manipulando as pessoas através da mentira descarada: sabem bem que foi o Parlamento Europeu que decidiu a realização das eleições entre 22 e 25 de maio, que todos os partidos políticos comunicaram ao Presidente que as eleições deveriam ser marcadas para o Domingo, dia 25 (as eleições em Portugal, sempre no Domingo, o único era o 25) e que o Presidente agiu em conformidade.

Mas não vou escrever sobre nenhum destes temas importantes e profícuos. Quedo-me antes num tema sempre esquecido, porque considerado insignificante, o do “voto em branco”. E, no entanto, constitui já a terceira força política na Região: 6,4% (ou 7,5% se somarmos os nulos); e sobretudo, representam efetivamente cidadãos que, exercendo o seu direito de voto e não se demitindo do seu dever de votar, expressam o seu descontentamento.

Considero que estes cidadãos não podem ser comparados aos abstencionistas e que devem ser valorizados em relação aos abstencionistas. Estes últimos facilmente passam por pessoas desinteressadas, indiferentes ou comodistas, não obstante a cobertura que recebem de políticos, analistas e comunicação social que promovem a sua ausência de voto a voto de protesto. O único voto efetivo, real e objectivo de protesto é o voto em branco (e eventualmente o nulo) correspondendo a uma decisão assumida por um cidadão responsável pela sua cidadania na medida em que se desloca à sua “mesa de voto” e faz descarregar o seu nome nos cadernos eleitorais, como qualquer outro votante, e depois exprime o seu protesto rejeitando inequivocamente todos os partidos e/ou candidatos às eleições. Não fica ausente; não se demite do seu dever de cidadão; vota e protesta! Estes merecem toda a nossa atenção.

 

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