Tive o privilégio de conhecer a Quinta de São Lourenço nos seus tempos áureos, designadamente nas décadas de 70 e 80.
É verdade que na altura não havia muita coisa na ilha, mas também é sabido que a então Estação Agrária da Junta Geral, e mais tarde os Serviços Agrícolas da Secretaria Regional da Agricultura e Pescas tudo faziam para experimentar novas técnicas que fizessem sair da terra maiores e melhores produções agro-frutícolas.
Os então Regentes Agrícolas, rodeados de vastas equipas de trabalhadores agrícolas, ensaiavam nos vários campos experimentais, quer na planície da Feteira, quer nos matos da Caldeira, várias culturas, da batata aos cereais (milho e trigo), das culturas industriais (tabaco, chicória e beterraba) às frutícolas e hortícolas, na ânsia conseguida da ilha ser praticamente auto-sustentável.
Essa verdadeira diversificação agrícola contava ainda com os campos experimentais de Santo Amaro, onde se forneciam plantios de hortícolas, e onde se vendiam os excessos de produção. Exportava-se plantio para as ilhas do Pico, São Jorge, Terceiro a São Miguel.
Não esqueçamos que vivíamos em tempos sem internet, sem ligações aéreas a Lisboa, e onde o saber chegava dos livros e dos poucos “canudos” existentes na ilha, ou nos navios (carga e passageiros) que aportavam ao nosso porto.
Visitar a Quinta de São Lourenço era uma lufada de ar fresco, tal era a forma ajardinada que apresentava, em atractivos viveiros delimitados por sebes vivas floridas (bardos de camélias).
Visitavam-se os animais domésticos, com os melhores reprodutores da ilha – bovinos, caprinos, suínos e equinos, não esquecendo as inúmeras aves de capoeira.
Recordo duas curiosidades relativamente a reprodutores: um burro “Primavera” que chegou a ir às ilhas do Pico e das Flores “cobrir” as burras, e os bois reprodutores que percorriam as freguesias rurais do Faial para “cobrirem” as vacas… Assim se fazia, ao natural, o melhoramente genético.
Visitavam-se os viveiros, os diversos campos experimentais, onde as espécies mais invulgares poderiam ser observadas, não só como curiosidade, mas como forma de demonstrar e convencer os agricultores a optarem pelas melhores e mais produtivas espécies.
Visitava-se o Solar com o seu lago e a sua Ermida, onde se realizaram inúmeros casamentos, tal era o ambiente agradável que aqui se desfrutava.
Mas ainda se visitava a mata com uma agradável zona de merendas, onde inúmeras famílias passavam os fins de semana e feriados, podendo ainda fazer um circuito de manutenção em redor da cratera (vulgo cova), circundada por espécies arbóreas diversificadas, e gostosamente tratadas e apresentadas.
Tenho saudades desse passado, onde fui muito feliz.
A DESTRUIÇÃO
A Região apostou tudo no desenvolvimento da agro-pecuária, seguindo-se o ciclo da carne e do leite, e bem…, não fosse o então Secretário Regional um veterinário.
Fundiram-se os Serviços Agrícolas com os Serviços Veterinários, nascendo os Serviços de Desenvolvimento Agrário, liderados por veterinários, pelo que a Agricultura passou a ser o parente pobre e desinteressante deste serviço.
Os Regentes Agrícolas viraram Engenheiros Técnicos Agrários, uns faleceram, outros reformaram-se, e os restantes, desmotivados, transferiram-se para a privada, deixando os Serviços Oficiais desprovidos de técnicos da terra…
Desapareceram as Brigadas de Desinfecção, que iam de freguesia em freguesia, de quintal em quintal, fazer a poda e a “sulfatar”, cuja receita chegou a cobrir uma parte significativa dos custos.
Perderam-se as campanhas de combate à mosca da fruta, e as culturas do pessegueiro, do kiwi e do… café. Tudo foi abandonado a favor da vaca. A solução estava na vaca e na subsídio-dependência.
Os campos foram abandonados, transformados em pastagens, os viveiros foram retalhados, primeiro para a construção da Feira Açores, depois para o Jardim Botânico, depois para o Hipismo e até para um Pavilhão de Lata, dito Multi-Usos, e para vacaria.
Tudo o que fez foi importante, mas será que era preciso destruir o trabalho e o saber de décadas?
Será que não havia outros terrenos onde se pudessem edificar as novas valências, sem sacrificar o passado?
Será que para construir o Jardim Botânico, agora em fase de ampliação, teve que se deixar a mato os viveiros em altitude, existentes em Pedro Miguel?
O ABANDONO
Visitei há duas semanas o Solar, a Ermida, a mata e a cova…
Caiu-me o coração aos pés!…
Está ao abandono.
O Solar está vandalizado, embora algumas rãs ainda sobrevivam no lago.
A Ermida está muito degradada.
A mata está abandonada, com os ramos caídos, embora ainda corra água no chafariz.
A cratera está a mato, com “figueiras do diabo” com mais de 5 metros, onde jazem os obstáculos da pista de hipismo, onde as espécies arbóreas raras tentam sobreviver sob a infestação da “trepadeira de flor roxa” que tudo mata…
Todo aquele património arquitectónico e ambiental está moribundo, e constitui uma nódoa para quem o visita…
Dizem que aguarda o Campo de Golfe…
Nada nem ninguém pode justificar tamanha barbaridade!…
O que se verifica é que destruir é fácil, e que os actuais “donos” da Quinta de São Lourenço não são dignos do passado que receberam, e que não souberam respeitar, honrar e transmitir às gerações vindouras.
DIVERSIFICAÇÃO
Agora, o Governo Regional apela à diversificação agrícola.
Agora, depois de ter ignorado durante duas décadas a produção agrícola, onde todos os apoios foram maioritariamente direccionados para as fileiras da carne e do leite.
Agora, depois de ter perdido os quadros de pessoal que tinham o know-how da terra, e da experiência adaptada à nossa ilha.
Agora, que as famílias deixaram de ter o hábito de cultivar a terra, de terem fora da porta o complemento para a sua economia doméstica.
Agora, que não somos capazes de ser auto-sustentáveis, quer na Região, quer no pais, onde importamos mais do que produzimos
Agora, que o FMI veio dizer aquilo que todos nós já sabíamos: que o nosso modo de vida não é sustentável…
Agora, talvez seja tarde demais, e talvez já não se vá a tempo.
Lamento que tenhamos sido governados por “gente” com tamanha insensibilidade!
Mas a vida é assim, constituída por ciclos.
Das cinzas se pode renascer, desde que tenhamos melhores dirigentes, com maior sensibilidade, e, acima de tudo, com politicas mais sustentáveis e inteligentes!
Tal opção, só depende de nós!
Tenhamos nós a coragem de nos incomodarmos, e ir colocar na urna o nosso voto, a nossa arma de combate ao despesismo, na defesa do nosso futuro.
(*) Dedico este artigo a meu pai, e aos seus colegas, Regentes Agrícolas já falecidos Mário Ávila, Raul Xavier e Abel Freitas.
Contributos, para











