“Eu sou uma ilha”, de Manuel Costa, ou o ímpeto de uma telúrica voz

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Acaba de ser editado o trabalho discográfico Eu sou uma ilha (produção de Comunicar Atitude, 2018), de Manuel Costa, cantor intuitivo, músico da exigência e do bom gosto, homem de pensamento e de agudíssima sensibilidade, cidadão do empenhamento cívico, conhecido pela sua brilhante fluidez discursiva.
Sobressai, neste disco, o rasgo da sua voz. Uma voz telúrica e poderosa, lírica e enfática, expressiva e bem calibrada, com flexões e inflexões muito agradáveis. Uma voz que é expressão e impressão, que sonha, reflete e imagina. Um estilo de cantar que, articulando e sincopando bem as palavras, revela inegável competência musical.
Manuel Costa canta com alma, ampliando os sentidos musicais e poéticos de compositores e autores. E, em paralelo, há neste trovador urbano, a arte de bem pisar as cordas da sua viola e um jeito de a tocar de forma muito bela e orgânica. É que este picaroto e a sua viola são unos e indivisíveis – nele a forma é já a expressão do conteúdo.
Intercalando tradição com modernidade, o disco inclui diversos universos musicais (música tradicional, canção, balada, fado e fado-canção), sendo que dos 16 temas selecionados, dois são originais musicados pelo próprio Manuel Costa: “Canção do garajau” (letra de Manuel Tomás) e “Esquema” (letra de Almeida Firmino).
Fazendo incursões pelo cancioneiro açoriano (”Tirana”, “Saudadinha” e “Barquinha feiticeira”), o cantor revisita e (re)interpreta temas que fazem hoje parte do nosso imaginário: “Ilhas de bruma” (letra e música de Manuel Medeiros Ferreira), “Chamateia” (letra de António Melo Sousa e música de Luís Alberto Bettencourt), “Boi do mar” (letra de Victor Rui Dores e música de Luís Alberto Bettencourt), “Cantiga da terra” e “O cantador” (ambas com letra e música de José Medeiros), “Velho Pezinho” (letra e música de José Francisco Costa) e “Poema destinado a haver domingo” (música de Aníbal Raposo a partir do poema de Natália Correia).
Por outro lado, em Eu sou uma ilha estamos perante bem conseguidas apropriações musicais, não para reproduzir, mas para modelar segundo a intenção e intuição do cantautor: “Partir é morrer um pouco” (letra de Mascarenhas Barreto e música de António dos Santos), “Fado dos Açores” (letra de Ary dos Santos e música de Carlos Alberto Moniz) e “Nove amores” (letra e música de Paulo de Carvalho, tema popularizado por Kátia Guerreiro). E depois há essa preciosidade melódica que dá pelo nome de “Montanha do meu destino” (letra de José Enes e música de Manuel Emílio Porto).
A todos estes temas, Manuel Costa, que atravessa uma fase de clara maturidade e de serenidade criadora, dá expressão lírica e intimista, sentido interpretativo e espessura emocional – seu registo de marca.
Uma palavra especial para o trabalho de extraordinária eficácia de Emanuel Cabral, responsável pela captação, edição mistura e masterização, sem esquecer a muito eficiente prestação dos músicos: Mike Ross (contrabaixo), Paulo Vicente (piano), Manuel Rocha (violino), Rafael Carvalho (viola da terra) e Francisco Costa (percussão). O CD incorpora um booklet com irrepreensível apuro gráfico.
Eu sou uma ilha é um produto de qualidade indiscutível e inquestionável, uma das mais porfiadas experiências musicais acontecidas, entre nós, nos últimos tempos. Trata-se de uma viagem musical e poética feita a partir dos Açores, mas com rotas traçadas para espaços universais, isto é, da ilha para o mundo. Porque universalizar é precisamente crescer a partir das raízes. Um disco que se ouve com infinito prazer e suprema emoção.

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