Evocando Sérgio Luís Paixão

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  “Quando tornar a vir a Primavera

Talvez já não me encontre no mundo.”

   Fernando Pessoa

Na tarde de 21 de Agosto último, na minha viagem de regresso de férias a bordo do “Santorini”, atendo o telemóvel e a notícia chega-me da forma mais cruel e brutal: o Sérgio Luís sucumbira ao cancro do pulmão que desde o ano passado o tomara de assalto. O seu desaparecimento físico representa, para quem com ele privou de perto, um profundo rombo no casco deste navio em que fazemos a viagem da vida.

Mantive com o Sérgio Luís Santos Paixão uma longa relação de amizade e camaradagem dentro e fora das artes de palco. Lisboeta nascido em 1948, mas de há muito radicado nesta ilha do Faial, ele vivia em permanente desassossego criativo. Senhor de muitos e múltiplos talentos, inquieto e irrequieto, irreverente e insubmisso, truculento e apressado, possuía uma consciência crítica e era dotado de um finíssimo sentido de humor. (Havia sempre um lumezinho de malícia galhofeira a faiscar-lhe os olhos piscos quando dele próprio dizia ser “engenheiro técnico toda a semana e artista aos domingos…”). 

Espírito desempoeirado, em mangas de camisa e de peito aberto, com olhar atento e mão certeira, o Sérgio entregava-se, com perspicácia e desmesurada paixão, a um intenso trabalho oficinal: à escrita, à pintura, ao desenho, à música, à ilustração de capas para livros, à concepção gráfica de cartazes, aos cenários, aos adereços e à carpintaria teatral. Com invulgar lucidez e portentosa imaginação criadora, escreveu, encenou, fez cenografias, musicou e dirigiu os atores do “Carrocel” durante mais de uma vintena de anos. 

Observador infatigável do real e da vida que se lhe ofereciam em palco, pensador livre e frontal, ele possuía a lucidez de uma inteligência. Travou um intenso diálogo com o seu tempo, sendo disso exemplo algumas das suas peças teatrais em que, a par de belíssimas comédias, denunciou, da forma mais feroz, os males e as fraquezas do nosso país.

Dedicou-se à canção infantil e, por via da sua actividade profissional, dinamizou a pedagogia rodoviária, áreas tendentes a despertar, na alma e no espírito dos mais novos, a fruição da palavra, da música e da segurança rodoviária. Recolheu, em livro, 30 canções para crianças: De sol a sol, (edição da Câmara Municipal da Horta, 1994), com transcrições para partitura da professora Sofia Winogradova. Já em 1978 tinha gravado, em Lisboa, um disco LP intitulado As Canções do Miguel. E, já a residir no Faial, após ter-se consorciado com a professora Lúcia Serpa, concebeu e apresentou, na RTP/AÇORES, durante anos, vários programas infantis. Recorde-se que, nas Lajes da ilha do Pico, ganhou, por diversas vezes, prémios para letra e para música no Festival da Canção Infantil Baleia de Marfim. 

Foi ainda autor e apresentador de vários programas para a RDP/AÇORES, tendo ainda colaborado com as rádios locais faialenses: a extinta Rádio Canal e a actual Antena 9.

Fez várias exposições de desenho e pintura, ele que, antes de vir para o Faial, pintara becos e ruelas em Alfama e no Castelo, desenhara barcos e moinhos no Algarve, tendo depois repetindo essa experiência em França, na Bélgica e na Holanda. Muito ele nos falava dessa experiência fundamental que foi pintar ao ar livre.

Homem de poucos deslumbramentos e de nenhumas complacências, o Sérgio era exigente e obstinado, arrojado e transgressivo, insidioso e intempestivo, cândido e perverso, mas sempre solidário e fraterno. Acima de tudo era um criativo e teria enriquecido se tivesse enveredado pela área da publicidade. Era um verdadeiro artesão de palavras, um manipulador de palavras, buscando sempre para elas novos planos de significação através da aliteração, do trocadilho, da chalaça, da chacota, do neologismo… Sim, era exímio no jogo de palavras, a forçar o lapsus linguae, a inventar a dislexia, caricaturando a frase feita, provocando e provocando-nos. Esse exercício foi feito, diariamente e ao longo de cinco anos, nas páginas do jornal “Telégrafo”, com o título de “Gralhas na memória”, mais tarde reunidas em livro: Ler, doce ler (edição de autor, 2001). E, no seu blogue com o mesmo nome (http://lerdoce.blogspot.com), ele continuaria, até aos últimos dias, a parodiar e a brincar com o significado e com o significante, com o sintagma e com o paradigma, com a sintaxe e com a semântica.

Ele e eu navegámos tantas canções… Em 2003 foi lançado, pela Faialentejo, o CD Paisagem de Lava, que reúne 14 cantigas da autoria dele com letras minhas. Não esquecerei essa viagem musical e poética.

Banhista habitué da Praia do Almoxarife, melómano de toda a boa música dos anos 60 (era um indefectível admirador dos “Beatles”), breliano de gema, Sérgio tinha (e está ainda online) um blogue sobre Jacques Brel (http://cantodobrel.blogspot.com/), seu “maître à penser”, de quem foi divulgador e traduziu para português a totalidade das canções. Ele fez-se cavaleiro andante por amor a Brel e, no referido blogue, com data de 21 de Agosto de 2012, despediu-se de todos nós com a tradução que fez do significativo poema “J´arrive”, daquele cantor belga.

Autor do pensamento vigilante, o Sérgio era poeta de apuradíssima sensibilidade, tendo dado à estampa um belíssimo livro de poesia sobre o Vulcão dos Capelinhos, ilustrado com fotografias de José Fontes, seu colega de trabalho: Versos na pedra (edição da Junta de Freguesia do Capelo, 2008).

É efémera a existência humana, sabemo-lo bem. Este nosso malogrado amigo é, agora, um percurso bruscamente interrompido. Fica a sua obra e o seu vazio à mesa. Sabemos (e sentimos) que ele continua vivo dentro de nós. Mas como calar esta imensa dor e esta irreparável saudade?

 

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