Fora de prazo…

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Nos tempos que já lá vão ( sempre tive desejo de começar uma crónica assim) não havia prazos de validade. A coisa existia, estava ali ao nosso dispor e só perdia o prazo no dia que acabávamos com ela. O prazo éramos nós, os consumidores, que o detectávamos, apalpando, cheirando, olhando o aspecto, uma canseira! E usávamos o produto sem culpas! 

Os próprios medicamentos não tinham prazo. Penso que não havia excepção à regra. Também se reconheciam pelo bom ar. Tal como as pessoas. O bom ar diz tudo. Fala. Elucida-nos. Coloca-nos alerta. De sobreaviso. E, olhem lá, não me refiro a idades, dinheiro, fatiotas, cargos importantes, mas sim aquela maneira como se nasce. Berço. Esse ninguém o tira. É o bom ar. Aquilo que muitos procuram mas jamais conseguem. 

Voltemos aos produtos com prazo. Hoje todos tem. E isso faz muita confusão. Não vou falar nos iogurtes, porque já o fiz em crónica anterior. No momento estou a pensar nas conservas. Como será que elas sabem a hora da morte? Imaginem o sofrimento de três sardinhas comprimidas numa latinha, onde nem uma barata se sentiria bem, decapitadas, sem oxigénio, todas besuntadas de óleo, um horror! Como é que elas tem capacidade para cronometrar o tempo? O prazo, tipo.. “ vou falecer amanhã”. E se o consumidor não pega na luneta, não lê o prazo, imaginem a trabalheira. Ou vai ao funeral delas ou sujeita-se a uma intoxicação!

Há produtos que até tem hora marcada. Compra-se a embalagem e não há mais descanso. Sim, porque havendo um descuido, terminou a hora e depois que fazer? Consumir ou ir a outro funeral? E assim com tudo o mais.

E os medicamentos? Nós, doentes, a dor atacando, abrimos o armário e ele ali, o medicamento certo. Que alívio! Qual nada! Acabou o prazo. E ficamos, gemendo com dores, pensando: Tomo ? Não tomo? E é uma mescla, porque o medicamento fica-nos olhando, impávido,  sereno e mudo, muito mudo. 

Tudo tem prazo. Papel higiénico tem. Já usaram papel higiénico já falecido? Cuidado! Olhem lá os efeitos colaterais ! Dantes tudo era mais fácil. O sabugo, por exemplo, vinha sem prazo.

Falo com descontracção porque de vez em quando lá vai algo já falecido. Iogurte, azeite, sabão, hidratante, eu sei lá! Ou sou muito resistente, ou será que acerto naqueles produtos mais descuidados que, na situação de clausura total, se esqueceram de falecer? 

E, um conselho às pessoas mais cuidadosas, preocupadas com prazos. Pensem que existem produtos que podem bater sola antes do prazo de validade por motivos vários como tédio, claustrofobia, ou somente raiva. Ninguém poderá jamais calcular o que se passa lá dentro da embalagem. As guerras, os desentendimentos, as confusões, que podem levar a sardinhita, a compota, a azeitona a serem assassinadas por uma colega entediada, antes do prazo. Deus nos livre!

E daria pano p´ra mangas falar sobre as pessoas que definem os prazos. Baseiam-se em quê? Fazem um estudo sobre a longevidade dos produtos? Ou simplesmente batem um papo com eles, para obterem informações detalhadas, tipo: – Diz-me lá até quando aguentas viva, hermeticamente fechada neste recipiente sem tugir nem mugir? Prometes morrer só no prazo? Isto será um acordo feito entre eles, acordo esse que nem sempre será cumprido, porque os produtos, tal como as pessoas, nem sempre tem palavra.

E, não resisto terminar esta crónica sem escrever a palavra troika, porque esta não morre e vai estar sempre no prazo. Até que a morte nos separe. Bonitinha, não?                                   

 

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