Gathering for Gardner 12

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Entre 30 de março e 3 de abril, decorreu em Atlanta (Geórgia, Estados Unidos da América) o décimo segundo Gathering for Gardner (G4G12). Estes encontros são dedicados ao grande divulgador de Matemática Recreativa, Martin Gardner (21 de outubro de 1914 – 22 de maio de 2010), conhecido pelo seu esforço de décadas em popularizar a Matemática e o jornalismo científico. Gardner escreveu a coluna “Mathematical Games” para a revista Scientific American, de 1956 a 1981, e a coluna “Notes of a Fringe-Watcher” para a revista Skeptical Inquirer, de 1983 a 2002, e publicou mais de 100 livros.
Na coluna “Mathematical Games”, Gardner deu a conhecer a uma audiência vasta temas que viriam a alcançar grande popularidade e que, ainda hoje, são alvo da atenção de muitos matemáticos e do público em geral. Exemplos disso são o jogo da vida, de John H. Conway (nascido em 1937), o jogo Hex, o Tangram, os flexágonos e os poliminós, os trabalhos artísticos de Roger Penrose (nascido em 1931) e de M. C. Escher (1898-1972), os fractais de Benoit Mandelbrot (1924-2010), entre muitos outros temas apelativos e apaixonantes. Seriam necessários longos anos para explicar, neste espaço do Tribuna das Ilhas, todos os temas abordados por Gardner!
Com clareza e entusiasmo, Gardner divulgou teoremas e construções matemáticas de alguma complexidade, tornando estes temas apelativos a uma vasta audiência. Já na coluna “Notes of a Fringe-Watcher”, Gardner combateu com frequência a chamada pseudociência, posicionando-se contra numerosas alegações dúbias e fraudes científicas. Muitos dos artigos escritos por Martin Gardner nas duas colunas acabaram por ser compilados numa série de livros publicados ao longo dos anos. Infelizmente a maioria dos livros não está traduzida em português.
Em 1993, em Atlanta, o colecionador de quebra-cabeças Tom Rodgers (1943-2012) convenceu Gardner a comparecer a uma tarde dedicada à resolução de quebra-cabeças. Essa reunião teve uma segunda edição com a presença de Gardner, em 1996, o que motivou Rodgers e alguns amigos a transformá-la num evento periódico. Desde então, este evento tem-se realizado em anos alternados, em Atlanta, e passou a ser designado por Gathering for Gardner, reunindo apaixonados pela Matemática Recreativa de vários pontos dos Estados Unidos e do Mundo. São proferidas palestras sobre temas variados de Matemática Recreativa, são divulgados e analisados jogos e quebra-cabeças e são revelados truques de magia, muitos deles com fundamentação matemática.
Neste G4G12, tive o prazer de integrar a comitiva portuguesa composta por Jorge Nuno Silva, Pedro Freitas e Tiago Hirth, da Associação Ludus. Foram dias bem passados com mais de 300 participantes e imensos temas interessantes de Matemática Recreativa. O próximo Gathering for Gardner, a sua décima terceira edição, decorrerá daqui a dois anos. Em anos alternados com o G4G, decorre em Portugal o Recreational Mathematics Colloquium, organizado pela Associação Ludus. Por sugestão da organização do G4G, o Recreational Mathematics Colloquium passou a designar-se desde a sua quarta edição, em 2015, por Gathering for Gardner Europe. Trata-se de um reconhecimento pelo papel relevante que a Associação Ludus tem desenvolvido em Portugal em prol da Matemática Recreativa. O próximo é já em janeiro de 2017, em Lisboa. A não perder!
A terceira edição do Recreational Mathematics Colloquium realizou-se na Universidade dos Açores, em 2013, ano em que também se celebrou a Matemática do Planeta Terra (MPT 2013). Em Portugal, o Ministério da Educação e Ciência, em parceria com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, liderou o processo de criação de um Comité Nacional, sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO. O projeto Matemática Urbana foi criado pelo Comité Nacional, no âmbito do MPT 2013, e um dos seus objetivos visou o levantamento matemático da Calçada Portuguesa. Nos Açores, fiquei com a responsabilidade de fazer esse levantamento. Alguma informação adicional está disponível na página “Simetrias nos Açores” (http://sites.uac.pt/rteixeira/simetrias/). Na sequência deste levantamento efetuado nos Açores, foi desenvolvido um baralho de cartas que contempla calçadas das nove ilhas, em co-autoria com Jorge Nuno Silva, Carlos Pereira dos Santos e Alda Carvalho. Este foi precisamente o tema que levei ao G4G12!
Os exemplos escolhidos para o baralho servem para ilustrar diferentes tipos de rosáceas, frisos e padrões bidimensionais em Calçada Portuguesa. Os frisos, devido à sua natureza unidimensional, encontram-se mais nos passeios; os padrões bidimensionais, que pavimentam zonas planas, têm predominância nas praças; as rosáceas são configurações planas, normalmente apresentadas numa disposição circular. Cada carta dos naipes de espadas e copas contém dois desafios: reconhecer o local a que se refere a respetiva ilustração e identificar as suas simetrias. As respostas a estes desafios encontram-se, respetivamente, nos naipes de paus e ouros. Para ajudar na classificação das simetrias, os jokers são espelhos. Na imagem, vemos um padrão bidimensional de uma das calçadas da cidade da Horta que foi escolhida para integrar este baralho de cartas. Numa próxima oportunidade, este baralho será explorado em pormenor.
Departamento de Matemática
Universidade dos Açores