Lista telefónica saída da crise

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Acabo de receber a lista telefónica. Fiquei olhando-a, embasbacada. Está reduzida à ínfima espécie. Pode o interior ser invisível (também não importa nada) mas o exterior, esse é muito elucidativo. Para quem ainda não se tenha debruçado sobre o assunto crise, fica na hora sentindo na pele o significado. Ali está ela. Não lista. Um projeto de lista. Pequena, pobre, patética. Uma imagem do que somos. Do que nos tornámos. Do que fizeram de nós. Toma lá que já almoçaste. Há anos!

Posso afirmar que não estou louca. Ainda raciocino bem, ninguém tentou internar-me nalgum manicómio da vida. Tão pouco procurei um psi. Circulo pelas ruas à vontade, sem pressentir olhares estranhos, não falo sòzinha, não tomo álcool, não consumo drogas. Sou normal.

Por tudo isto arrogo-me no direito de dizer o que penso. Sem subterfúgios. E daí falar na crise. Ou das crises que vivem sob os nossos olhos e nós não vemos. Porque não acreditamos ou porque não nos convém. É um passar ao lado. Como num acidente. Acelera e segue o teu rumo, que a dor não é tua. Além disso a pressa é mais que muita. Mais que fazer. O pronto socorro já lá está. Assunto encerrado. Esquecido. Afinal aquilo só acontece aos outros. Que se lixem! 

A mão estendida na nossa frente, preenche-se com uma moedita e arranca que se faz tarde. Não convém ouvir a lamúria. Chatice! Que culpa tenho eu? E afinal são tantos a pedinchar! Mania! 

O sem abrigo nem a mão estende. Lança um olhar profundo, daqueles olhares de mil frases ditas (ele já tem muita tarimba). É um psicólogo da vida. E nós mandamos um bom dia para aliviar, pensando que talvez o infeliz vire outro. Até já o seja. Afinal não trabalha, não tem horários, não se cansa, nem cama tem para arrumar.

Meus amigos, isto é o cúmulo! Acredito, porque vejo, que se pode resistir a viver em condições como aquelas, mas, como podem pessoas viver sem coração? Sim, porque se o tem deve ser um coração bem reles (perdoem o termo) mas não encontro outro. Daqueles corações que estão pedindo a fúria dum Pedro o Justiceiro.

E, curioso, aquelas pessoas indiferentes à miséria alheia, regateiam refilam, barafustam, o escambau, porque lhes subtrairam uns euros no vencimento, na reforma, no qualquer coisa que tinham. Mas tinham e continuam tendo sempre. E os outros que nada tiveram para descontar? E ficam caladinhos! São gente igual a nós, com a diferença que conseguem sobreviver com o muito nada e o nada muito. Ambicionando apenas o que faz  falta e não o que falta. 

Já aqui fiz referência à terceira guerra mundial, que, penso, teve início no fim da década de 90. Não terá sido uma guerra declarada, mas uma guerra que transcende as nações. E só agora Portugal se deu conta que também entrou nela.

Pensando bem, concluímos que esta guerra se propaga por tudo quanto é sítio. Está no mar, na terra, no ar, no campo, na cidade e agora até no clima. Ora vejam só! Esta guerra transcende as nações. É uma guerra de todos contra todos. Uma guerra louca, patética, sem sentido. Um salve-se quem puder. Mas ninguém topa uma tábua de salvação. Esgotaram-se todas em pequenas guerras. Não há mais!

Esta guerra é muito contagiosa. É do Estado. Passou para a sociedade. E aí a guerra pelo emprego. E pela criação do emprego. É a guerra da guerra contra a guerra da paz. É a guerra das religiões. É a guerra dos pais contra os filhos e dos filhos contra os pais. É a guerra dos ricos contra os pobres e a guerra dos pobres contra os ricos. É a guerra de todos contra todos. Resultado doutras guerras e causa doutras que virão.

Certamente esta guerra não ficará na história. Ela é a própria história. E incontrolável. Medonha. Invencível. Cancro da vida. Raízes por todo o mundo. Omnipotente. Omnipresente. 

E analisando friamente, conscientemente pensamos: Quem somos nós, para continuar ousadamente a jogar sem trunfos, uma vez que ela já os engoliu todos ou quase todos? 

Assim, nós, insensíveis, sem alma, vamo-nos animalizando. E não nos damos conta que estamos todos sendo chocalhados no mesmo melting-pot. E dia destes vamos ser engolidos. Hoje tu, amanhã eu. É uma guerra. As balas perdidas são mais que muitas. E chegam sem aviso.

Talvez seja melhor ser os primeiros. Quem escapa duma não escapa d´outra. E talvez seja melhor não escapar, porque aquele que escapa, pode ter a sua lotaria chegando. Lá no sitio onde ontem estava o outro, o desprezado, agonizando, há uma vaga. Para aquele que até então esteve na mó de cima, conhecer também o que é o inferno.

Deus não escreve direito só por linhas tortas. Acho que também o faz por linhas direitas. E muito bem e muitas vezes!

 

 

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