Helena Krug ou a captação do olhar

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A sala de exposições da Biblioteca Pública da Horta é, na minha opinião, o único espaço do Faial que dialoga com a contemporaneidade. Não conheço, nesta ilha, melhor lugar para expor artes plásticas. Daí que, para mim, seja sempre um enorme prazer ali poder apreciar eventos artísticos.

Desta vez, e até ao dia 16 de março do corrente ano, está patente uma exposição de pintura, com o título genérico de “Expressões”, da autoria de Helena Krug, bióloga marinha de profissão, mas que mantém com a pintura um compromisso de paixão. Eis a prova provada que a arte pode atingir a ciência, e esta pode imiscuir-se naquela.

  Podemos observar 49 quadros em acrílico – muitíssimo bem expostos e iluminados, e que dão unidade, coerência e consistência à referida exposição. E o que vemos? A tridimensionalidade de rostos expressivos de homens, mulheres e crianças que, com olhar frontal, olham e nos olham. Em cores bem calibradas que denotam sobriedade e integridade. Porque o que mais singulariza a pintura de Helena Krug é precisamente a captação do olhar, a força de expressão desse olhar.

Com efeito(s), há em cada quadro um rosto que nos convida a olhar. E a naturalidade de uma expressão. E cada um desses olhares revela um estado de alma, sendo que a humana expressão está nesses olhos enormes e brilhantes e na maneira como a pintora os valoriza. Alguns retratados exprimem exuberante alegria e outros estão sérios e introspetivos. Lá estão velhos e novos, gente do povo e gente urbana. Perante as telas, sentimos mistério e dramatismo. Há o grito de incontida raiva e há a expressão ensimesmada daquela emigrante. E vemos rostos africanos (de muito bem conseguidos contrastes), deparamos com os traços fisionómicos daqueles alentejanos, e descobrimos o escritor Dias de Melo, o incontornável Norberto Diver e tantas outras figuras reconhecidas e reconhecíveis, íntimos e familiares. Todos recortados em fundos de multi-tons e a respirarem serenidade.

Trabalhando a partir de fotografias, Helena Krug não nos dá propriamente retratos, mas feições que foram moldadas pela sua imaginação plástica de criadora, ela que não pinta o que vê, mas o que sente. Resultado: os rostos que conhecemos do dia a dia surgem-nos encantados, transfigurados. E isto porque a pintora agarra, e bem, o lado psicológico e a luz interior dos seus modelados. É por isso que olhar uma imagem não é só entendê-la, é também (re)criá-la.

Pintados com simplicidade formal e revelando beleza plástica, sobressaem nestes quadros valores de originalidade e de modernidade. Estamos perante uma harmonia cromática, um equilíbrio dos elementos de composição, a delicadeza dos contornos, jogos de luz e sombra, uma ou outra ressonância com a arte africana. O resultado é perfeitamente realista (ia escrever expressionista) e cria uma ilusão de volume muito convincente e coerente com o estilo de Helena Krug, a artista bióloga que pinta com emoção e talento à rédea solta.

 

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