O meu tempo… O teu tempo…

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O mundo, regra geral, refere-se ao tempo de cada qual, consoante a idade. Os mais velhos falam: no meu tempo… E falam convictos, como se o tempo deles já houvesse terminado e eles não fizessem parte integrante do tempo d´hoje. A única diferença é que  d´ontem para hoje foi variando.

O tempo de cada qual será a vida e essa vida vai mudando, como é óbvio. É isso que os mais velhos, saudosistas, não sabem ou não querem entender, privilegiando sempre o tempo antigo. Eu, que faço parte desse tempo, confesso que ele foi bem mais entediante, especialmente para os jovens.

E a vida inicia-se quando nasce a criança que logo abrindo berreiro anuncia aos pais e ao mundo: Aqui estou. Cheguei. Nasci. E, a partir daí, será sempre o seu tempo. Até à hora da morte.

O bébé irá crescendo, tornando-se menino que sonhará coisas cada vez maiores, cada vez mais fortes, mais ricas, mais ambiciosas, cada vez mais e mais. Será adolescente. Será adulto. Conhecerá então que a vida é muito estranha, complicada, exagera, não perdoa, fica jogando absurdos a toda a hora e instante mas… é a vida.

E vai acumulando experiências e sabedoria. Vivendo em voz alta. Cada vez mais adulto. Com mais capacidade de se emocionar, abrir gavetinhas da memória e lá guardar momentos bons e maus, alegrias e tristezas, corridas de volta ao passado, risadas, lágrimas, carinhos, amores e desamores, o colo da mãe…

E, assim, gavetinhas trancadas, continua por muito tempo vivendo em voz alta. Já mais frágil na revoada, mas procurando sempre entrelaçar as asas, sabe Deus porquê !

E, bem velhinho, vai abrindo as gavetinhas da memória, uma a uma, agradecendo pelo riso, momentos bons, com capacidade ainda de se emocionar, capacidade essa que lhe dará coragem de cultivar lembranças nas sombras dos seus subterrâneos. Revisitar experiências que não se apagam e rasgam os sulcos que abrigam as lágrimas da vida.

E cada vez mais idade , irá pensando que tudo dá certo e se não deu ainda, tanto melhor, é porque não chegou ao fim. A sorte é que muita gente ainda crê na vida antes da morte e aí toda a diferença.

O velhinho não deve ficar em imobilidade de aranha. Porque é difícil. Confunde. Baralha as ideias. Acelera o sistema. É importante aguardar pausas na existência, colocar emoções em movimento. Revisitar sorrisos, recuperar afetos, abraços, carinhos, colocar os amores em dia, partilhar o tempo da delicadeza… O pior da vida é acreditar que a gente não é capaz!

E é sempre este o seu tempo. Que só terminará naquele silêncio que virá no fim. Silêncio pesado, lenitivo de dores, homenagem àquele que partiu ! 




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