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Retalhos da nossa história – CLXXII – Humberto Correia – farmacêutico, jornalista e amador teatral

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Filho de D. Filomena Correia e do guarda-livros António Francisco Correia Júnior, Humberto da Cunha Correia nasceu a 26 de janeiro de 1878 e destacou-se como farmacêutico, jornalista e amador teatral. 

No Liceu da Horta, onde se matriculou pela primeira vez em 1889, manifestou o seu pendor para as Letras. Com João Romano de Freitas foi responsável pela “Revista Faialense”, (2.ª série); fundou, em 1895, o semanário humorístico “Sal e Pimenta”, de que foi diretor e que tinha como redatores os jovens Henrique Linhares de Lima – que viria a ser ministro do governo de Salazar e deputado à Assembleia Nacional – e Abílio da Silva Greaves, futuro sacerdote, jornalista e inventor nos Estados Unidos. Esteve também na génese do semanário “Correio da Semana”, tendo igualmente fundado, em 1898, “O Proscénio” semanário teatral que durou cerca de três anos. Foi o único periódico do género que se publicou no Faial e, provavelmente nos Açores, facto que revela quanto o Teatro era cultivado na Horta de finais do século XIX e na primeira metade do século XX. 

Além dos jornais que instituiu, Humberto Correia colaborou em “O Telégrafo”, “O Fayalense” – quando dirigido por António Baptista – em “A Democracia” e, especialmente no “Correio da Horta”, cuja redação frequentava todas as noites sendo um dos animadores das suas afamadas tertúlias. Pessoa culta, foi, sobretudo, um homem do Teatro: autor e amador durante largos anos, salientou-se como um competente crítico dos espectáculos que se exibiam nos palcos faialenses e de que nos deixou abalizadas opiniões em artigos que assinava com as iniciais do seu nome – HC e H – ou então com algum dos pseudónimos que utilizou, nomeadamente Baldemónio, Boris Yvanoff ou Fra Diavolo. Nesses artigos, bem como na correspondência que manteve com outros homens de letras – ainda hoje se podem ler no Arquivo da Horta as cartas que trocou com Marcelino Lima – podemos apreciar o seu talento, que nos revela ser ele um profundo conhecedor da Arte de Tália. Lia corretamente o francês, tendo traduzido e adaptado as seguintes comédias: “A Sorte dos Maridos”, encenada no Teatro Faialense em 1935, pelo Grupo de Teatro do Fayal Sport Club; “Provisório & C.ª” representada em 1936, na mesma casa de espectáculos pelo Grupo Dramático de Chaby Pinheiro e “O Genro do Sr. Poirier”, levada pela primeira vez à cena em 1897 e repetida com assinalável sucesso em anos subsequentes, especialmente em 1907, pondo de tal modo em evidência os dotes de cultura e inteligência de Humberto Cunha Correia que até o conceituado “Diário de Notícias” registou o facto na “Seção Teatral” inserindo a sua fotografia. 

Como ator pertenceu ao Grupo de Teatro do conceituado escritor e ensaiador António Baptista, ao lado de D. Celisa Santos, D. Lucília Baptista, Marcelino Lima, João Inácio da Silva, José da Silva Cardoso, Pato Moniz, Manuel de Silos e Francisco Augusto da Silveira. Era ainda estudante do Liceu quando se estreou nos palcos faialenses, vincando bem a sua atuação no grupo cénico “Troupe de Carlos Posser” de que foi um dos fundadores em 4 de junho de 1896, tendo participado em várias comédias e operetas, como “O Genro do Sr. Poirier”, “O que a mulher não faz”, “O criado distraído”, “Uma mulher no seguro” e “Camisa-de -onze- varas”1. Os espectáculos que promoveu tiveram, quase sempre, fins filantrópicos e caritativos, de que são exemplos os realizados em benefício do maestro Francisco Xavier Symaria (31.10.1897), das irmãs do falecido padre José Emídio de Sousa (14.11.1897), dos Asilos da Infância Desvalida e da Mendicidade (3.7.1898), da construção do novo Hospital da Horta (25.6.1899), da Cozinha Económica Faialense, a pedido de D. Maria Cristina de Arriaga (26.5.1900) ou em auxílio dos “prejudicados com a inundação causada pela tromba de água caída na vila das Lajes do Pico, a pedido do Visconde Leite Perry” (9.2.1901)2. 

Humberto Cunha Correia, partidário seguro do grupo do Dr. Neves, exerceu vários cargos em organismos políticos e em instituições de solidariedade social, sendo Juiz Subdelegado da Comarca da Horta, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, vice-presidente da comissão distrital da União Nacional, membro da Junta Geral do Distrito e presidente da Câmara Municipal da Horta.

Depois de cursar o Liceu da Horta, tornou-se explicador de estudantes do ensino secundário e foi empregado na farmácia Ayres Pinheiro, antes de ir prosseguir estudos na capital portuguesa. Aí obteve, em 6 de fevereiro de 1903 o diploma de farmacêutico passado pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Regressou à Horta e a 2 de setembro desse ano abriu a ainda hoje existente “Farmácia Correia”, onde, além de proprietário, trabalhou cerca de 30 anos. Morador numa pequena casa da rua Dr. Arriaga Nunes, Humberto Correia foi um “teatrólogo distinto” que “escreveu e traduziu várias peças”. Dotado de  “vasta ilustração, servida por uma memória prodigiosa”3, esta “figura grada da intelectualidade faialense” deixou variada publicação dispersa pelos jornais, especialmente no “Correio da Horta”, cuja Redação frequentava quase todas as noites e onde “pontificava com a sua verve espontânea e o seu comentário jocoso, por vezes picante e sarcástico”4. Foi neste diário que, sob o pseudónimo de Fra Diavolo, publicou em três edições de setembro de 1935, a interessante crónica intitulada “A Urna dos Cedros” que é uma sátira magnífica, baseada em factos verídicos, ao corrupto sistema eleitoral dos tempos do rotativismo monárquico em que progressistas e regeneradores protagonizavam cenas verdadeiramente deliciosas e onde Humberto Correia mostra conhecer, em profundidade, os acontecimentos e as personalidades destas ilhas. 

Com a idade de 78 anos, faleceu, “de senilidade”, a 5 de junho de 1956 e “não deixou herdeiros, nem bens, nem fez testamento”5. 

 

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