IMAR – DOP Açores apresentam grandes concentrações de microplásticos

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Desde 2015 que o IMAR – Instituto do Mar do Departamento de Oceanografia e Pescas – DOP está a estudar a presença de plásticos e microplásticos no mar dos Açores.
Christopher Pham lidera o projeto científico LIXAZ, que acompanha a evolução do lixo na Região e ao Tribuna das Ilhas falou da importância que este estudo tem para o futuro.

Nas últimas décadas muito se tem falado nas questões ambientais. A palavra poluição passou a fazer parte do nosso quotidiano e é uma consequência do desenvolvimento das cidades e da Revolução Industrial, no século XVIII.
Até então, as preocupações ambientais centravam-se sobretudo na poluição atmosférica, na camada do ozono e no aquecimento do planeta, até que recentemente a presença de lixo, nomeadamente de plásticos e microplásticos no ambiente aquático passou a ser motivo de preocupação.
Tribuna das Ilhas teve conhecimento que o IMAR do DOP estava a desenvolver um estudo sobre a presença destas substâncias no mar dos Açores e foi ao encontro do responsável pela investigação Christopher Pham.
À nossa reportagem o biólogo adiantou que o projeto científico LIXAZ, financiado pelo programa operacional Açores 2020 (ACORES-01-0145-FEDER-00053), é a continuidade de outro projeto que teve início em 2015 designado por AZORILIT com vista a registar o lixo marinho nos Açores.
Segundo o investigador a necessidade de realizar um estudo sobre esta matéria surgiu quando a sua equipa se encontrava a monitorizar a atividade marinha existente no fundo do Banco do Condor.
O biólogo explicou que ao analisar as imagens captadas no local pelo ROV, “um equipamento que vai ao fundo do mar”, verificaram a presença de “linhas de pesca, garrafas e outros itens humanos” constatando que talvez seria importante registar também as quantidades de lixo encontradas e perceber o seu impacto meio marinho.
Depois, avança, “percebemos que seria interessante estudar também as quantidades que eram encontradas nas praias e aí começamos a desenvolver outras questões e outras investigações nomeadamente na área da ingestão por parte dos animais”, disse Christopher Pham.
O coordenador do projeto adiantou a este respeito, que o projeto não é apenas focado nos microplásticos, mas “engloba coisas maiores, mas estes constituem uma parte importante do trabalho”, salientou.
Neste sentido, Christopher Pham referiu que “basicamente pretendemos perceber a quantidade de plásticos que poluem o ambiente marinho. Não só no fundo do mar, mas também à superfície a boiar, nas praias e nos animais”, destacou.
No desenvolvimento deste projeto, para além dos três investigadores, que trabalham regularmente com Christopher Pham e dos estagiários que ao longo destes anos se juntaram ao projeto, a equipa conta com a parceria “fundamental” do Governo Regional, que ajuda na recolha de dados.
O biólogo do DOP explicou a este semanário como se desenvolve este projeto.
“Cada um dos componentes do projeto tem uma metodologia diferente de estudo, e envolve pessoas diferentes”, deu a conhecer.
No caso dos microplásticos existentes nas praias “que são os mais pequenos”, o responsável avançou que depois de observarem “as quantidades impressionantes existentes em algumas praias da Região” montaram um programa de monitorização com o apoio dos vigilantes da natureza.
“Desenvolvemos um protocolo de amostragem com eles que consiste em recolher seis amostras num quadrado em praias diferentes do arquipélago no mesmo dia, de cada mês”, desde 2016.
O biólogo deu a conhecer que nesse ano, ele e a sua equipa deslocaram-se a todas as ilhas do arquipélago, reuniram com os vigilantes da natureza, explicaram a metodologias e entregaram o material necessário à recolha de informação e “a partir daí eles perceberam como funcionava o sistema e todos os meses passámos a mandar um mail a dizer onde deve ser feita a amostragem e depois com a ajuda do Parque Natural das Ilhas é feita recolha dos dados”, esclareceu.
No que se refere à presença desta substância nos animais, o investigador, avançou que o estudo se foca essencialmente nos animais que arrojam à costa mortos, uma vez que é “mais fácil obter a amostra”, e em três espécies específicas, nomeadamente as tartarugas, os peixes e nos cagarros.
Neste caso, o biólogo referiu que conta com a colaboração da Rede de Arrojamento dos Cetáceos dos Açores (ARACA), da Direção Regional do Ambiente e do Mar (DRA e DRAM) e mais uma vez, dos vigilantes que vão recolhendo os animais.
“Cada vez que temos um animal morto, neste caso tartarugas, consoante o seu estado de decomposição, recolhemos o corpo e congelamos para depois fazer as necropsias e ver a quantidade de plástico que foi ingerido”.
De acordo com o cientista, outro animal muito importante para este estudo é o cagarro. Christopher Pham afirma que aproveitam a Campanha SOS Cagarro, que acontece em outubro para monitorizar a presença plásticos nesta espécie.
“Como se sabe existem algumas crias de cagarros que morrem sem nunca terem saído do ninho e nós, mais uma vez, com a ajuda do Parque Natural e dos vigilantes da natureza, recolhemos os corpos e fazemos análises para ver a quantidade de plásticos que eles apresentam no estômago”, deu a conhecer.
No que se refere aos peixes, o coordenador do LIXAZ avança que em colaboração com o programa Nacional de recolha de dados que mede os peixes em lota fazem a recolha de alguns estômagos para também analisar a quantidade de plásticos presentes.
Já quanto à quantidade de lixo que se encontra à superfície o biólogo avança que a monitorização é feita em colaboração com o programa POPA, que está relacionado com a pesca do atum. “Quando estão no mar os observadores vão registando os plásticos que encontram”.
“Nós temos estes programas a funcionar todos ao mesmo tempo com muita informação a ser recolhida sobre as quantidades existentes aqui para estudar os impactos que tem nos animais”, sustentou Christopher Pham.
O interesse por este tema tem vindo a aumentar, no entanto, ainda pouco se sabe sobre os efeitos que os plásticos, macroplásticos e microplásticos têm no ambiente aquático.
Perante este perigo ambiental, as entidades governamentais dos diferentes países estão a aplicar medidas com vista à redução da produção destes materiais que levam anos e anos a deteriorar-se e que são atualmente “uma das ameaças principais para os animais”, salientou o investigador.
Neste sentido, Christopher Pam destacou a “importância” da realização destes estudos, entendendo que este problema deve ser encarado como uma prioridade “devido às quantidades existentes”.
Para o investigador “os impactos são muito importantes uma vez que o plástico tem uma durabilidade muito grande, a sua degradação é lenta e afeta muitos animais pelo que tem grande impacto nos ecossistemas marinhos”, reforçou.
“O Governo percebeu que não tínhamos conhecimentos sobre as quantidades de plástico existentes na Região e criou medidas com vista a reduzir a utilização do plástico”, avançou o biólogo adiantando que “é necessário ter uma base para perceber as quantidades existentes agora para depois comparar com as existentes no futuro” de forma a “avaliar a eficácia das políticas que estão a ser aplicadas na redução do lixo, e termos uma ideia de qual é a maior ameaça para a Região tanto ao nível dos animais como para fazer um estudo sobre o impacto que o lixo tem em termos económicos”, frisou.
O investigador, explicou que esta “é uma área de investigação que está que está a ser implementada e por isso ainda existe poucos conhecimentos sobre os impactos diretos dos plásticos nos animais”, no entanto diz saber que “a ingestão por parte de algumas espécies faz com que eles não tenham espaço para outros alimentos, ficam com a sensação de estarem cheios e acabam por morrer”.
Neste contexto, adiantou que “isto são tudo suposições porque não temos dados suficientes para mostrar o impacto direto nos animais. Já existem estudos realizados em laboratório que demonstraram que os químicos associados ao plástico podem entrar nos tecidos dos animais e interferir com os processos hormonais e alterar a sua capacidade de reprodução e em geral na saúde do indivíduo com impacto também nos seus ecossistemas”, disse.
Questionado sobre qual a origem destas substâncias no arquipélago o biólogo sustenta que esta é uma questão para a qual gostaria de ter uma resposta.
“A maioria das coisas que encontramos são fragmentos. No entanto, sabemos que esses fragmentos estavam no mar há já algum tempo. Os itens entram no mar inteiros e vão-se degradando ao longo do tempo consoante o vento, o mar e as marés e vão ficando cada vez mais pequeninos”, explicou, garantido que “grande parte dos fragmentos encontrados nos Açores vêm de fora, porque nós estamos numa zona muito dinâmica e estamos mesmo no meio do Oceano e é pouco provável que seja de origem local”, até porque “grande percentagem são os fragmentos o que significa que vem de longe do atlântico”, explanou.
Christopher Pam avançou ainda que a sua equipa se encontra a colaborar com outros locais do mundo, com o objetivo de colocar os resultados regionais em contexto internacional. “Estamos a colaborar com estudos nas Canárias, na Madeira, França e com o Mediterrânio através de um projeto específico sobre as tartarugas. Há vários anos que tentamos ter comparações válidas com os nossos dados. Estamos também a trabalhar com um grupo de investigadores franceses, espanhóis, italianos e gregos para tentar comparar os resultados e ver o potencial das tartarugas como indicador de lixo”, deu a conhecer.
Quanto a resultados, o investigador diz ainda não poder avançar com dados concretos, adiantando que “estamos ainda a processar todos os dados, temos valores por algumas praias. Sabemos que há praias que acumulam muito mais do que outras. Por exemplo, em Porto Pim encontramos algumas vezes, muitas quantidades, em casos extremos, após tempestades de sul, já encontramos mais de 6mil partículas por metro quadrado” e que “a Praia da Areia no Corvo é uma das que mais partículas acumula”.
“A nível dos animais, as tartarugas têm um nível de ingestão bastante alta e os cagarros juvenis cerca de 90% apresenta plástico”. Isto numa amostra de cerca de 500 indivíduos que “já é significativa”, referiu o biólogo.
O coordenado do LIXAZ, revelou que ainda estão a estudar os dados recolhidos, “mas já fomos considerados como uma zona do Atlântico que acumula muito lixo. Mesmo globalmente sabe-se que esta parte do Atlântico tem muita concentração de plástico. E já fomos designados pela ilha plástico”, concluiu.
Nas últimas décadas a poluição marinha por plásticos tem vindo a ser uma ameaça crescente para a vida marinha. Todos os anos, uma parte muito significativa dos plásticos da indústria e dos consumidores são libertados no ambiente, estimando-se que cerca de 10% dos plásticos produzidos terminem nos oceanos e mares. 

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