Luís Paulo Garcia, responsável pela Cáritas/Faial: “As medidas que estão a ser tomadas arrasam agregados familiares”

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Na passada quarta-feira, 17 de Outubro, assinalou-se o Dia Internacional pela Erradicação da pobreza. Para assinalar a data, Tribuna das Ilhas conversou com Luís Paulo Garcia, responsável da Cáritas no Faial, que chamou a atenção para o facto de existirem cada fez mais faialenses em dificuldades.

A equação que rege o dia-a-dia das famílias portuguesas é fácil de esboçar: os rendimentos caem e os impostos sobem. A par disto, muitas famílias juntam à equação a perda de rendimentos de um dos membros do casal, ou mesmo dos dois, para as fileiras do desemprego, que não param de subir. Uma vida estável há alguns anos transforma-se assim, num mero exercício matemático, num malabarismo financeiro para chegar ao fim do mês que, a dado ponto, deixa de se concretizável. É aí que começa a faltar o dinheiro para o pão.

De acordo com Luís Paulo Garcia, também no Faial se tem assistido a um aumento destas situações. Os pedidos de ajuda à Cáritas crescem “semana após semana”. “Há situações novas em virtude de um dos membros do casal ter ficado desempregado. Isto é preocupante”, considera.

Em 2011 a Cáritas/Faial entregou vestuário a 300 pessoas. Quanto aos pedidos de alimentos, no último mês chegaram 30, número recorde que é o último reflexo de um aumento que não vai ficar por aqui. No que diz respeito aos alimentos, o responsável começa mesmo a ficar preocupado com uma eventual ruptura: “Estamos preocupados com a nossa capacidade de actuação, porque pode chegar o momento em que não teremos recursos para ajudar estas pessoas”, diz.

A procura de ajuda vem de todos os lados e de gente de todas as idades. Jovens, pessoas de meia-idade e idosos procuram a Cáritas com uma frequência cada vez maior. Luís está consciente de que esta situação se deverá intensificar, tendo em conta as medidas que têm vindo a ser tomadas por quem governa: “as medidas que estão a ser tomadas arrasam agregados familiares. Não há qualquer protecção para as pessoas desfavorecidas. Grande parte da população vai ter dificuldades”, vaticina.

Para o responsável, mais importante do que dar o peixe é, no entanto, ensinar a pescar. Nesse sentido, a Cáritas integrou o projecto Formar para Inserir, que este ano permitiu a 30 pessoas aprenderem a gerir melhor o seu dia-a-dia. Aulas de culinária, costura ou horticultura podem parecer irrelevantes, mas Luís Garcia garante que estes conhecimentos são essenciais para uma melhor gestão dos dinheiros domésticos:  “quando havia dinheiro as pessoas tinham um acesso fácil às coisas. Era só comprar. Agora isso acabou. As pessoas vão ter de passar a confeccionar sopa em casa. É importante para a alimentação e é um prato económico. E muita gente não sabia fazer uma sopa. Há pessoas que tinham espaços com relva e que aprenderam a cultivar e agora têm couves, alfaces cebolas… As pessoas têm de se voltar para a terra e perceber que é menos dinheiro que vão gastar. É a este tipo de formação que temos de dar continuidade”, diz. No entanto, a tarefa não é fácil. Sem grandes orçamentos, a Cáritas precisa de “formadores voluntários para dar três horas diárias de formação durante 9 meses”, o que não é fácil.  Neste momento a Cáritas tem, no entanto, um projecto no programa Reactivar, no qual várias pessoas estão a concluir o 9.º ano de escolaridade em regime nocturno.

Os interessados em ajudar a Cáritas podem fornecer alimentos à instituição, com preferência para os que têm prazos de validade alargados. Enlatados, leguminosas, massas, cereais ou leite são alguns exemplos. Estes dois últimos itens são muito importantes já que, segundo Luís, o número de pedidos para senhas de refeição nas escolas, tem aumentado. “Temos alunos no Faial que vão para a escola de manhã de barriga vazia. Isso tem de ser trabalhado. Os filhos não podem pagar a factura”, alerta.

Quanto ao futuro, o trabalho da Cáritas passa por aumentar o número de voluntários “para que o trabalho resultante abranja cada vez mais pessoas”. No entanto, Luís lembra que combater a pobreza não pode ser uma tarefa só de alguns, já que o assunto diz respeito a toda a comunidade.

É necessário “desburocratizar apoios”

Quem o diz é José Leonardo Silva, vice-presidente da Câmara Municipal da Horta e responsável pelas iniciativas de âmbito social do município. José Leonardo explica que a principal preocupação da autarquia neste momento é criar soluções para facilitar o acesso de quem precisa aos apoios. Com o agudizar da crise, o autarca reconhece que não podem existir semanas de espera entre o pedido de auxílio e a sua concretização.

De acordo com José Leonardo, em 2012 o município tem dinamizado vários projectos para ajudar os faialenses em dificuldades. Destes, destaca o Fundo de Emergência Social, no seu primeiro ano de implementação, e o programa Novos Desafios, que este ano se desenrola nas freguesias da Feteira e dos Flamengos, e que pretende ajudar os munícipes com dificuldades ensinando-lhes como gerir a casa, confeccionar as refeições, entre outras coisas. Para o autarca, este programa espelha bem o objectivo do município, que passa por “combater a pobreza não dando apenas dinheiro mas fornecendo as ferramentas e as competências para que as pessoas possam sair dessa situação”.

O município tem também outras formas de apoiar os mais necessitados, como o banco de voluntários ou o Cartão Solidário, que oferece descontos na conta da água e em outros serviços da responsabilidade do município.

O mecanismo de apoio social que mais tem assistido a um crescimento da procura é, no entanto, as bolsas de estudo para os estudantes universitários. José Leonardo explica que os pedidos cresceram mais de 50% nos últimos tempos.





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