Mais um Dia da Criança

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Hoje é o Dia da Criança, a data escolhida para, ano após ano, reiteradamente, celebrar o valor precioso e incondicionado da criança e chamarmos a atenção da sociedade para as suas responsabilidades para com as crianças. Por isto, neste dia que especificamente se lhe dedica vale a pena associarmo-nos a esta celebração e ter a criança no centro da nossa atenção e assim também privilegiá-la nesta breve crónica.

Não quero, porém, alinhar pelo discurso fácil, e frequentemente inconsequente, que decorre num puro registo afectivo e adopta uma linguagem poética invocando emoções profundas, como sejam a do enlevo e carinho, que toda criança desperta em nós, pela sua inocência e fragilidade extremas; ou ainda a esperança que o seu olhar nos traz, uma esperança não só continuidade de vida, mas também a de que o futuro pode ser melhor. Tudo isto é verdade, mas insuficiente.

Também não quero alinhar pelo discurso confortável, e frequentemente descomprometido, que repete o politicamente correcto acerca da criança, proclamada sujeito de uma carta de direitos que reclamamos sejam integralmente satisfeitos pela sociedade e suas instituições. Tudo isto é necessário e indispensável, mas não chega.

Com efeito, o cuidado a que toda a criança apela não se confina nem se satisfaz nos gratificantes sentimentos que em nós suscita: a empatia natural que sentimos com as crianças faz despertar o que de mais genuíno e sincero encerramos em nós. Da mesma forma, as nossas responsabilidades para com as crianças vão para além do que se pode instituir: os direitos legalmente estabelecidos para a criança constituem apenas condições mínimas essenciais para garantirem a sua possibilidade crescer, física e psicologicamente, e de se desenvolver, como pessoa singular.

O nosso dever superior perante a criança, perante a esperança de quem pode ser tudo o que não alcançámos e pode transformar aquilo em que fracassámos, ultrapassa largamente tudo o que os direitos estabelecidos lhe atribuem: igualdade de direitos independentemente da “sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade”, protecção “pela família, pela sociedade e pelo Estado”, atribuição de “um nome e uma nacionalidade”, “alimentação e ao atendimento médico”, “educação e cuidados especiais” para as “crianças portadoras de dificuldades especiais”, “amor e à compreensão dos pais e da sociedade”, “educação gratuita e ao lazer”, “as crianças têm direito de ser socorridas em primeiro lugar em caso de acidentes ou catástrofes”, protecção “contra o abandono e a exploração no trabalho”, “direito de crescer em ambiente de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”.

O nosso dever é também o de estar presente e acompanhar as nossas crianças preparando-as para viverem no mundo de hoje e incentivando-as a transformar o de amanhã; o nosso dever é o de dar e ensinar a merecer, o de recusar e ajudar a compreender, o de promover o “ser” para além de disponibilizar o “ter”, o de permitir que ousem e de exigir que obedeçam, o de exercer autoridade sem coarctar a autonomia que deve ir crescendo à medida que crescem também a consciência de si e dos outros e a responsabilidade pelo que faz e pelo que pode fazer.

Só quando cumprirmos plenamente os nossos deveres para com as crianças, elas terão os seus direitos plenamente salvaguardados, mas então…já não será enunciá-los.

 


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