Máquinas e suas birras!

0
20

Como prometi cá me encontro novamente falando sobre elas. As máquinas. Entendo que não seja assunto muito interessante para escarrapachar no jornal, mas olhem lá que isso alivia muito e é um motivo para que possamos ter uma noite mais tranquila, com uma fuga a ben-u-rons, lexotans e outros que tais.

Ora bem, falando sobre máquinas, confesso que tenho uma espécie de alergia às malvadas e por isso as minhas desculpas a quem as adore e leve a vida enfronhada nelas, elogiando e desculpando todas as maluqueiras que elas fazem.

Bem, até entendo que as máquinas tem as suas razões para se portar mal. Elas nasceram e viveram a maior fatia da vida encurraladas em grandes fábricas, armazéns, lojas, grandes espaços. Ali, encostadinhas umas às outras, em absoluto silêncio, sem nada fazer, consequentemente tornaram –se claustrofóbicas e preguiçosas. Vai que um belo dia um qualquer maluco entra no espaço, vai-se pavoneando por entre elas e atira a sentença: “ Quero esta”. Foi o fim! 

A infeliz é levada à força para o transporte, meio zonza, sem entender nada. São todas de compreensão lenta. Chegada a casa do comprador, o mais normal é topar com alguém feito eu, que a recebe de pé atrás, cara de quem há muito perdeu a medalha de miss simpatia. E ela passa-se. E lá com seus botões vai estudando a vingança.

Colocada no sítio que lhe foi destinada, ela permanece tranquila até que alguém a ligue à tomada. Imaginem o abalo que a infeliz sofrerá, mas resiste, ao mesmo tempo que o sentimento de raiva começa a crescer.

Algumas conseguem suportar a dor por mais tempo, mas outras há que, refilonas, começam com exigências: escolhem o detergente, o amaciador, pesam a louça, a roupa, a comida, farejam tudo bem e se a coisa não corre a primor é um ver se te avias. Gemem, berram, arrotam, vomitam, até saltam,  caso daquelas da roupa, como que para avançar para nós. Por vezes sinto que vou ser atacada. Olho de soslaio e vou saindo de mansinho. E pedindo a Deus que o estafermo encontre a porta de saída. Para sempre. Não medo. Respeito. Pego o papelzinho do prazo. Faltam anos luz! Não importa! Como diria o outro: “Deixála andála”.

O caso dos frigoríficos e arcas é quase um fenómeno. Estes, além de todos os outros defeitos, ainda tem o condão de suar. De raiva. Verdade, é ver o suor escorrer até ao chão, camarinhas! 

Com computadores a minha relação é diferente. Parto para a ignorância. Enquanto o mundo leva a vida lidando com eles, eu lanço um olhar de revés para o coisinha  e pego naquele bloquinho antiquado, caneta ou esferográfica (atenção, não é assim qualquer uma , eu uso Mont Blanc. É para o leitor saber a categoria de material que eu uso, pensando em si). E aí vou rabiscando o que me dá na real gana. E ninguém, porque não autorizo, me dá dicas.

Isto porque o senhor computador, sabichão, modernaço, querendo aderir ao  acordo ortográfico, teima em engolir os ç os p, o escambau! Acho uma indelicadeza, para além de não aceitar as palavras que eu tenho o direito de inventar. É o cúmulo! Não nasci para receber ordens duma máquina!

E aquelas maquinetas pequeninas, umas miseráveis, que se negam a moer, triturar, torrar, e jogam fumaça  para o ar, falecendo! Ou fingem! Ah! Mas essas eu resolvo o problema na hora. Arranco-as da tomada e lixo com com elas. Se estiverem fingindo que faleceram, verão o que é bom para a tosse!.  

Sinceramente penso que só há uma máquina que me seduz. A máquina de café Nespresso. Nós temos um entendimento perfeito. Aí fica ela impávida e serena, olhando-me. Sem tugir nem mugir. Não berra, não pula, não arrota, não nada. Até a acho tão bonitinha. Ali rodeada das suas cápsulas coloridas, numa tranquilidade que nem só! Até sinto que ela me olha com ternura, enquanto eu indecisa, penso: vou tomar um cosi. Não. Um voluto. Um livanto. É muito forte! E olho-a. Há uma cumplicidade e eu entrego-lhe um arpeggio descafeinado. Ela aceita, feliz. E eu agradeço. Aquela máquina tem inteligência e educação! As coisas que eu detecto!

E quando elas se quedam por completo! Dá para desconfiar. E chamamos o técnico. Ele entra, enfrenta a coisa e ela, espertalhona, começa a funcionar como se nada fosse. O técnico olha-nos na certeza que não funcionamos bem, bate a porta e ela, entra novamente em coma. Fazer o quê?

Caso possua muitas máquinas loucas, caso tenha cara de poucos amigos, caso tenha lido a minha crónica até aqui (bravo, valente!), caso esteja atingindo o  limite de procurar um psi, tome de preferência um calmante forte. Pelo menos à terceira toma, você apaga. E quando ressuscitar, procure o Tribuna. Lá, esta crónica, espreitando. E aí fica ciente que eu tenho razão. Falo sério!

Faça isso, leitor. Depois parta  para a ignorância. Como eu. Não releio o que escrevo. Sei que não é fácil agradar a gregos e troianos. Não penso também nos inimigos que estão sempre d´olho. Seja o que Deus quiser!

Afinal tenho mais amigos do que pensava. Por que será que nestes últimos dias me tem oferecido pequenos electrodomésticos? Eu nem fiz anos! Não é Natal! Não é Páscoa! Estou confusa! Eu, que nem penso nesses objectos! Terminando deixo uma dica: Hoje mesmo a minha máquina de sumos deu o último suspiro. É só uma informação!

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!