Mudam-se os tempos, mudam. De verdade.

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É verdade que é com muito gosto que aceito o convite que me foi feito pelo atual diretor do jornal “Tribuna das Ilhas”, dr. João Paulo Pereira, sobre Educação. A breve caminhada que ensaio levar a cabo- e espero não cansar excessivamente quem lê- partirá de uma análise dos problemas gerais da educação e só depois dos particulares.
Num primeiro momento farei uma breve reflexão sobre os desafios que a educação enfrenta no tempo atual. Um tempo em mudança, de verdade. Mudança a todos os níveis: complexidade do conhecimento, da organização, das metodologias e da definição das competências a desenvolver, nomeadamente a responsabilidade, a autonomia, o diálogo, o compromisso e a cooperação, quer no seio de uma comunidade educativa, ou em qualquer outro contexto. E estas competências são fundamentais, porquê?
Porque o sistema social global atual pauta-se pela complexidade e pela imprevisibilidade, colocando desafios inéditos aos Estados, às comunidades, às organizações e aos próprios indivíduos que têm de se adaptar à incerteza e à inquietude deste tempo. As rápidas transformações sociais, os avanços científicos e tecnológicos, a globalização económica e cultural (e consequente perda das diversidades identitárias), a crise socioeconómica generalizada, os graves problemas ambientais, os conflitos e a violência crescente, a nível planetário, constituem desafios globais que exigem uma análise e uma compreensão profundas da nossa responsabilidade coletiva face ao destino do Humano e ao nosso futuro. É neste contexto que se tem assistido a uma preocupação crescente, nos últimos anos, nas sociedades democráticas, relativamente à qualidade e adequabilidade da educação aos desafios globais. Porquê? Para enfrentar os desafios da complexidade. Para promover conhecimentos cientíticos e tecnológicos mas, sobretudo, aptidões/ competências e responsabilidades, quer no plano individual, quer coletivo, face ao destino de todos. Para promover a autonomia, a liberdade e a auto-regulação. Para promover a humanização e o compromisso de cada um para com os outros e para com a vida, em geral.
Em 1996, a UNESCO publicou o documento” Educação, um Tesouro a Descobrir”, conhecido como o documento Delors. Foi com base nesse documento que a OCDE identificou, em 2002, um conjunto de competências necessárias à participação dos indivíduos nas sociedades democráticas. Simultaneamente, identificou como fundamentais alguns saberes: saber lidar criativamente com os problemas globais, a literacia científica e as novas linguagens ligadas às tecnologias da informação. Foram sistematizados do seguinte modo: 1º- A faculdade em resolver situações problemáticas permite a mobilização de conhecimentos, atitudes e estratégias de ação no sentido de ultrapassar obstáculos. 2º – Saber comunicar adequadamente, usando com rigor a língua materna e línguas estrangeiras. 3º- Ser capaz de desenvolver pensamento matemático e saber aplicá-lo à realidade. No domínio do saber-fazer: 1º- Saber agir num contexto social global; conceber e implementar planos de vida e projetos pessoais; delinear direitos, interesses, limites e necessidades pessoais. 2º- Utilizar ferramentas interativamente, isto é, usar ferramentas de comunicação e a tecnologia de forma interativa. 3º. Funcionar em grupos socialmente heterogéneos, saber relacionar-se com os outros; cooperar e trabalhar em equipa, resolver conflitos e saber interagir com a diferença. Para a construção do saber (conhecimentos) e do saber-fazer( aplicação prática do conhecimento à realidade), é necessário aprender a aprender, ou seja, aprender a procurar, sistematizar e organizar a informação e transformá-la em conhecimento. Aprender a agir livremente, responsavelmente, numa prática de cidadania ativa, integrando a solidariedade, a tolerância e a dimensão ética da pessoa humana. Desenvolver uma maior consciência de si, do outro e da relação do ser humano com a Natureza, desafiando o atual sentido da globalização económica e da desumanização e propondo a globalização da liberdade, da justiça e da solidariedade. (Aliás, esta é a lição de humanidade profunda que o Papa Francisco está a dar ao Mundo). Outra competência fundamental é o espírito crítico, pois permite apresentar e defender uma opinião pessoal fundamentada em argumentos. E aprenderá a Ser. PESSOA.
Por fim, as escolas são uma pedra basilar no sistema educativo. Mas as escolas não são pedras isoladas; têm uma dimensão sistémica e refletem a complexidade, as contradições e as incertezas deste tempo. Por essa razão, “cada escola deve (re)construir num processo criativo a partir das suas práticas, o seu percurso, o seu próprio projeto de desenvolvimento(…)o que implica uma aprendizagem constante, em equipa, já que envolve uma alteração das relações de poder entre os diferentes membros da comunidade.” (Delors, 1996)