MUMA – Freddy Locks

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O Muma passou por aqui outra vez. Falhou? Grande azar. Porque o Música em Março trouxe desta vez o Freddy Locks. Numa casa bem composta e animada, o cantautor mostrou ao Faial o seu reggae de intervenção. Apoiado numa versão tão curta e quanto sólida da sua banda, felizmente imposta pelos limites do orçamento – o baixista Hugo Ganhão e o baterista Pedro Queiroz – , Freddy (Frederico Oliveira) ofereceu aos presentes um belo guia para a ação do indivíduo na sociedade, qual pregador dos tempos modernos numa sociedade em (demasiada) alta rotação. Tal como a simplicidade e pureza do seu reggae, a mensagem também é simples. Faz ao outro o que gostavas que te fizessem.

 

MV – Freddy, Já conhecias os Açores?
FL – Sim, uma vez vim cá jogar ping-pong, quando tinha 17 anos e era atleta júnior do Benfica (top12), já foi há muitos anos. Fui ao Pico e a outras ilhas.

MV – E depois do Ping-Pong?
FL – Comecei a namorar e descobrir o que eu era. Estive ligado ao movimento okupa, descobri que era anarquista. Estive uns anos sem estudar, a tocar na rua. Foi um mestrado. Mas não era compatível com o ping-pong. Passados dois anos comecei a trabalhar. E o que ficou foi a música.. Ainda cheguei a entrar para a Universidade (Antropologia) mas comecei a trabalhar nos correios e não continuei. Tem sido intenso. A música é uma parte. Há 15 anos que tenho o meu trabalho numa pequena agência de viagens – recebo turistas japoneses em Lisboa. A música é como um psiquiatra, de que eu necessito para desabafar.

MV – Continuas a levar a bandeira do intercâmbio secular com os Japoneses?
FL – Claro, ainda que o conhecimento cultural seja pouco, mais por extensão a viagens a Espanha.

MV – a música portuguesa lá fora parece ser só o fado..
HG – por um lado é bom, porque da-nos personalidade lá fora, e cá dentro. Há 10 anos as pessoas não queriam ouvir música em português, o fado mudou isso.
FL – Isso tem muito a ver com a promoção que se faz. O Fado é a música tradicional de portugal, é incontornável. Mas essa imagem exterior vem de uma conjuntura de moda.

MV – Mas o Reggae é um dos géneros mais universais, no seu público, na sua linguagem e mensagem. Tens ‘saída’ lá fora?
FL – A música, hoje em dia e como quase tudo na nossa sociedade, é um produto comercial. Tens de ter um video muito bom, a produção excelente, e eu não tenho. Só faço aquilo de que gosto, muito caseiro e apenas com as pessoas de quem gosto. Mas nesta fase da música e da vida estou a sentir essa necessidade, de ir buscar um bocado mais de mercado.

MV – Isso passa pela internacionalização?
FL – Sim, o reggae que eu faço é de intervenção, mais ‘roots’, anos 60-70, e o público não está tanto aqui mas mais noutros lugares da Europa, Alemanha, Inglaterra, França, etc.

MV – Dizes numa música tua que o reggae não está à venda…
FL – Essa é só mais uma das mensagens que eu tento insistentemente passar na minha música – que as coisas boas não podem ser compradas, nem qualificadas. Hoje é tudo demasiado comercial e comerciável, banalizado, e eu escrevi essa música como um desabafo. A música que eu faço é para alimentar a alma, para não nos fazer sentir sozinhos. Talvez demasiado ambicioso, mas o que eu quero realmente não é ter sucesso nem ganhar dinheiro com a música mas libertar-me e ajudar a libertar as pessoas.

MV – Achas que, por exemplo, a malta mais nova compreende isso, essa diferença?
FL – tenho consciencia que 99% das pessoas que ouvem a minha música não está consciente dessa mensagem, acaba por ligar a outras coisas. Muitas vezes, tocando nos palcos grandes – festivais de verão, etc. – percebo que as pessoas estão mais a curtir o momento do que a interiorizar essa mensagem. Mas depois há surpresas, como quando amigos aqui dos Açores me dizem que os filhos ouvem as minhas músicas em casa e sabem as letras. Assim vale a pena, e tem valido a pena. E só posso fazer isso. Dar o exemplo e tentar transmitir. Tentar tirar um pouco do negativismo e projectar positividade. As minhas músicas falam todas do mesmo: ser verdadeiro, fazer aos outros o que gostavas que te fizessem, dar o exemplo – falar, falar e não fazer é mentir a ti próprio

MV – Sentes que pregas muito ao deserto?
FL – Um bocadinho, mas quando sentes o que dizes tens menos expectativas. E com a idade vais tendo cada vez menos. O melhor momento é quando acabo de fazer uma música, sozinho em casa. Já não me importa muito se estou a pregar ao deserto ou não. A música é de quem a apanhar. É perigoso ter expectativas. E muito bom ter aquilo que se tem. No fundo é preciso arranjar formas de não ir abaixo neste mundo. Como é possível sabermos que menos de 1% da população tenha mais riqueza que os restantes 99%, ou que a comida deitada fora na Europa dava para alimentar quem de facto precisa por esse mundo fora, e estarmos e vivermos bem com isso? Na verdade é uma consciência que não é nova, mas que vamos ter de ter cada vez mais. Temos sempre o sonho da evolução da humanidade, mas no fim da linha somos dominados pelo medo e pelo individualismo. Este mundo que o promove tanto, o salve-se quem puder, é também cada vez mais um mundo em que dependemos uns dos outros. E tenho esperança de que isto acabe por encaminhar, e acho que está a ir no bom sentido.

MV – Isso é compatível com o sonho anarquista?
Sim, para mim o anarquismo é liberdade e responsabilidade máxima, respeito pela liberdade dos outros. E tenho esperaça de que as coisas estejam a ir nesse sentido, a dar a volta, ainda que talvez com custos elevados. Tenho dois filhos e gosto de pensar desta forma. Acredito que há cada vez mais pessoas conscientes, informadas, exigentes com elas próprias e com muita capacidade. Vai ter de ser.

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