Não aprendemos nada com a nossa história

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Já o “Pai da Medicina”, o grego Hipócrates, dizia estar nos pés o melhor remédio para a peste – fugir o mais depressa possível!
As pestes, no sentido de epidemia, visitaram regular e dramaticamente as populações humanas ao longo da História, trazendo consigo um cortejo de morte assustador.
Depressa o Homem aprendeu que uma das formas de se proteger e à sua comunidade (para além de fugir de locais infetados) era isolar os contatos com os lugares onde já se manifestava a doença.
Quem lida com fontes da História dos Açores e do Faial do século XIX e, mesmo, da primeira metade do século XX, conhece quão frequentes eram os alarmes de epidemias e as consequentes obrigações de embarcações e pessoas das ilhas ou locais onde elas se declaravam, ficarem sujeitas às quarentenas e ao isolamento, únicas garantias de ajudar a impedir o alastramento da doença. Na baía da Horta, nesse tempo e nessas épocas de epidemias declaradas ou suspeitas, eram, por isso, habituais as embarcações “em quarentena”.
A forma displicente, preguiçosa e de excessiva autoconfiança como a maioria dos países do mundo olhou para o surto epidémico do Corona Vírus (rebatizado, depois para Covid-19) quando ele se manifestou na cidade de Wuhan, na China, é a prova de que, às vezes, não aprendemos mesmo nada com a nossa História. Já só depois da epidemia alastrar e de os contágios serem exponenciais, e só depois do exemplo alarmante da Itália é que, e mesmo assim, lentamente, os nossos governantes foram acordando para a emergência que se se avizinhava, tendo, no fim, de recorrer ao melhor mecanismo que ainda se conhece para conter o avanço dos contágios: o isolamento e a quarentena, decisões que os governantes do século XIX teriam tomado há muito…
Sei bem que não vivemos nesse século, sei bem que as envolventes são diferentes, sei bem que as potencialidades científicas e médicas são hoje infinitamente outras, mas não consigo afastar-me da convicção de que a maioria dos decisores políticos e dos governantes olhou para esta epidemia com a sobranceria de quem vive um estádio de desenvolvimento científico e civilizacional onde não seriam possíveis expedientes ultrapassados do passado como as quarentenas.
Enganaram-se redondamente. Como se enganam sempre, mais cedo ou mais tarde, todos aqueles que recusam ou teimam em ignorar os ensinamentos da História.
Também aqui nos Açores, onde o isolamento é mais fácil, as medidas têm vindo a medo, mais consequência dos acontecimentos do que verdadeira antecipação aos problemas.
Oxalá que ainda estejamos a tempo de evitar o pior em ilhas onde o índice de envelhecimento é alarmante e, por isso, o risco deste vírus é muito maior.
A multissecular capacidade dos Açorianos em enfrentar nas suas ilhas as adversidades está novamente à prova. Sejamos todos capazes de ajudar a vencer mais este difícil desafio.
17.03.2020

 

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