Nunca desistas!

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A política, nas sociedades democráticas, é uma atividade extraordinária. Através dela temos a possibilidade de tornar a nossa sociedade mais próspera, mais justa e mais solidária. Os representantes do povo têm a grande honra e a responsabilidade de propor, discutir e votar em nome de todos os que representam, nunca esquecendo nesse processo os interesses gerais da nossa comunidade.
O melhor representante de uma comunidade não é o que defende privilégios para o seu povo em detrimento de todos os outros. Os progressos individuais de cada uma das nossas comunidades insulares constituem motivo de orgulho para todos os açorianos. Mas os princípios sagrados da irmandade açoriana – uma das sociedades mais solidárias do mundo – incluem uma regra inviolável: nenhuma ilha, nenhum açoriano pode ficar para trás.
Aprendi o que é ser açoriano em muitas das ilhas açorianas onde vivi. Este povo extraordinário tem o condão de sublimar o que de melhor tem o nosso espírito. De elevar as nossas circunstâncias e de despertar a centelha de bondade que Deus colocou no coração de cada um de nós.
Mas a ilha do Corvo, meus amigos, é de facto o Mosteiro que tanto impressionou Raul Brandão. Os que eu conheço agora são os netos e os bisnetos dos homens e mulheres que tanto impressionaram o escritor. Posso testemunhar que a bondade, a coragem e a frontalidade permanecem nas suas almas.
Mas não procurem a sua resignação perante as circunstâncias e a inclemência do isolamento. Os corvinos são um orgulhoso povo de sobreviventes. Resistiram a tudo. A uma colonização difícil, a mais penosa da História das nossas ilhas.
Resistiram ao corsário Francis Drake, que mandou incendiar a única localidade da ilha do Corvo. Tiveram, apenas três anos depois, a sua vingança quando assistiram, no alto das arribas da sua ilha, à derrota e aprisionamento do navio-almirante a partir do qual Drake enfrentou, em 1588, a Armada Invencível espanhola. O mítico galeão “Revenge”, então comandado por Sir Richard Grenville, opôs, ao largo da ilha do Corvo, uma resistência formidável, que ficaria célebre (1591).
Deram provas da mesma tenacidade e determinação quando conseguiram impedir, em 1632, uma tentativa de desembarque de uma frota de piratas provenientes do território otomano da África do Norte, algo que representou uma vitória inacreditável, que ecoou nos palácios de Madrid.
O povo do Corvo tem uma História incrível. São um misto de heróis e de camponeses generosos. Nunca foram vencidos. Sempre souberam ser gratos e justos. Mouzinho da Silveira, um dos mais geniais políticos e reformadores portugueses de todos os tempos, pediu que o enterrassem na ilha do Corvo.
Escreveu, no seu testamento, o melhor que um homem pode escrever a respeito de um povo: “Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores, e se isto não puder ser por qualquer motivo, ou mesmo por não querer o meu testamenteiro carregar com esta trabalheira, quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da freguesia da Margem, pertencente ao concelho de Gavião; são gentes agradecidas e boas, e gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”.
Os corvinos sabem que a História lhes deve meio milénio de penúrias, negligências e esquecimento. Esse tempo, o tempo em que era possível fazer de conta que não existia gente que sobrevivia milagrosamente no último penhasco atlântico da nossa civilização, acabou.
Respeito e admiro profundamente a História do povo “da minha ilha”. Procuro que a minha atividade parlamentar seja digna do que ela representa para a História dos Açores. Ambiciono ter a mesma determinação e a mesma tenacidade. O princípio é resistir. Resistir sempre. Persistir para além de qualquer dificuldade e nunca claudicar.
Ao longo destes dez anos no Parlamento dos Açores, essa foi a receita com que alimentei o meu espírito. De outra forma não vale a pena. Estarei a mais quando assinar uma qualquer rendição e me submeter a um ultimato. Esse dia, quando chegar, será o último da minha vida parlamentar.
Os homens não podem desistir das causas justas. A rendição perante a injustiça e a força arruínam a nossa alma e o nosso espírito. Vale a pena viver uma vida de cabeça baixa, derrotado nos princípios que sempre nortearam a nossa existência? Eu acho que uma vida assim não faz sentido e não vale a pena ser vivida.
A única opção que me dou a mim próprio é persistir nas causas justas, custe o que custar. Por mais sacrifícios que a situação implique. Perseverar. Perseverar sempre.
Para muitos, algumas causas parecem demasiado pequenas e direcionadas para pouca gente. Mas para mim, o que está em causa são princípios. O princípio da justiça. O princípio da igualdade de oportunidades. O princípio da resistência perante a discriminação.
Os princípios possuem a grandeza que mede todas as outras coisas. A cadeira do autocarro de Rosa Parks não era muito grande, mas o que representou teve o tamanho suficiente para mudar muitas coisas.

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