O assalto à Trinity House

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O Governo Regional protagonizou na semana passada um verdadeiro assalto à Trinity House. Sem que nada nem ninguém o tivesse previsto desta forma, o Governo decidiu, unilateralmente, encerrar aquela ilustre “casa” faialense e despejar todas as entidades e instituições que ali exerciam a sua atividade.
Foi da noite para o dia que a ordem foi dada por parte da Secretaria Regional da Educação e que atingiu drasticamente, como um balde de água fria, a Escola Básica e Integrada da Horta e os seus alunos, assim como outras instituições relevantes da ilha do Faial, nomeadamente, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta (AAALH), a Unisénior e o Grupo dos Amigos da Horta dos Cabos Submarinos.
É certo que o imóvel é propriedade da Região e que o mesmo se encontrava cedido. Mas dizer-se num dia que se está a trabalhar com vista à reabilitação do edifício – e que as obras ocorrerão para o próximo ano, que, por sinal, é ano de eleições legislativas regionais – e no outro dia dar ordem de expulsão às entidades ali residentes por falta de segurança do edifício, não deixa margem para dúvidas do desleixo, desinteresse e incúria demonstradas pelo Governo Regional em todo este processo.
Desde logo, porque não cumpriu uma Resolução da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovada por unanimidade em 2013, e que lhe recomendava a realização de beneficiações na Trinity House. Depois, porque, ao longo de anos, inscreveu verbas no Orçamento Regional para a sua preservação, mas nunca chegou a utilizar.
E, por fim, porque perante este quadro de perigo que sempre lhe foi dado a conhecer – falta de condições de segurança do edifício para a sua utilização pública – permitiu que, durante cerca de dois anos, o mesmo fosse utilizado por centenas de crianças do “Castelinho” e frequentado por inúmeros alunos da Escola Básica da Horta.
Isto, obviamente sem falar das aulas ali realizadas por parte da Unisénior do Faial. Portanto, por ali passaram tantas instituições e tantas pessoas que, sem saberem, estiveram em risco, e possivelmente sem consciência de tal.
Estes são, sem dúvida, aspetos sobre os quais importa refletir, para que, no futuro, e em situações semelhantes, os mesmos não voltem a acontecer. No entanto, este encerramento traz consigo diversas situações problemáticas às quais o Governo Regional não curou de encontrar soluções.
Falamos da Unisénior que, despejada daquele espaço, fica sem local para lecionar as suas aulas, agora que se aproxima a passos largos o início de mais um ano letivo. E que solução encontrará o Governo para colmatar a falta de espaços para as aulas de educação física ali realizadas pelos alunos da Escola Básica e Integrada da Horta? Será que, perante esta adversidade, o Governo Regional decidir-se-á, finalmente, a lançar a nova fase de construção da EBI da Horta?
E o que dizer do Museu dos Cabos Submarinos que há mais de 10 anos é aspiração faialense e que o Governo teima em apregoar que será instalado na Trinity House, mas que até hoje nunca passou de meras palavras?
Perante esta situação de risco, urge, pois, ao Governo Regional esclarecer que medidas adotará para evitar a completa degradação do edifício.
Isto porque este contínuo ato governativo de deixar votado à sua sorte tão emblemático edifício, classificado como de interesse público, compromete, de sobremaneira, a criação daquele museu e o papel histórico relevante que a Horta e a ilha do Faial desempenharam nas comunicações transatlânticas.
Se até agora os faialenses olharam mais atentamente para o seu aeroporto e a necessidade da ampliação da sua pista, para o seu porto e a necessidade de repensar o novo projeto, chegou agora o tempo de olhar também para o edificado existente e reivindicar a urgente necessidade de preservação deste e de outros imóveis classificados como de interesse público, sob pena de corrermos o risco de vivermos uma sequela da Trinity House.

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