Aos leitores destas crónicas as minhas desculpas pelo silêncio nas últimas semanas mas decidi andar solto em férias com a familia pelo Porto e Lisboa. No Porto o pretexto foi um casamento e em Lisboa não houve pretexto nenhum, nem era preciso. Entre momentos descontraídos, na liberdade de nada ter que fazer nem horários a cumprir, andei em busca de alguns livros que não se encontram em parte alguma nas livrarias habituais. Os livros são sempre um bom pretexto. Abalei em companhia de minha filha numa visita demorada a alguns antigosalfarrabistas que conheço nos arredores do Largo Camões ali ao pé da Brasileira do Chiado, revivendo velhos rituais dos tempos de estudante em Lisboa e passando o testemunho à nova geração que fica assim a perceber os tesouros que se podem encontrar em estantes velhas e poeirentas. Sempre gostei de me deixar ficar nesses templos das letras na “capital do império”, criei mesmo relações de amizade em alguns deles cujos donos eram tão generosos ao ponto de me deixarem passar ali tardes inteiras apenas a ler algumas das preciosidades nas suas estantes, não tinha nos meus tempos de estudante recursos para os comprar mas a fome de livros era medonha. Almoçamos no Poço dos Negros e entre as preciosidades que conseguimos encontrar estão, por exemplo, os dois volumes do “Amores de uma cadela pura, confissões da Marquesa Jácome Correia” de Margarida Victória e uma primeira edição de “A mosca iluminada” de Natália Correia. É por estas e outras que adoro Lisboa e os seus alfarrabistas. Tenho também um apreço especial pelos correios, não só por minha mãe ter aí trabalhado durante muitos anos, mas porque sinto um fascínio romântico por cartas, aquelas escritas à mão em papel e que se enviam dentro de um envelope com selos, indicação do remetente e endereço do destinatário. Nos dias de agora com o advento e afirmação do email, da internet e das redes sociais a maioria de nós talvez as considere arcaicas ou fora de moda mas confesso que para mim elas continuam a ter um espaço especial, ajudam a alimentar a alma e espevitam a memória quando vamos ao baú e as reencontramos, por vezes sem esperar. Até parece que falo de cartas de amor, de todos os tipos de amor, essas concerteza que terão um lugar ainda mais luminoso junto ao coração de quem ama, mesmo tendo o Pessoa dito que “todas as cartas de amor são ridículas”. Também de sentimentos “ridículos” se faz o ser humano e frequentemente esses são os mais belos e genuínos. Minha filha, conhecedora de seu pai e sabedora destas coisas e outras, resolveu surpreender-me escrevendo em papel, na véspera da minha partida, uma carta. Na sensibilidade dos seus 13 anos conta uma história, a história do rapaz dos caracóis que não se lembrava dos sonhos… Tão tocado fiquei com o que li, com a profundidade e beleza da sua mensagem, com o jeito súbtil e meigo de tocar nas profundezas do pai, que decidi recomeçar estas minhas mcrónicas com a sua história, assim mesmo tal e qual a escreveu e com a devida vénia, para que nunca deixe de alimentar as coisas da alma, a sensibilidade aos outros, o gosto pela leitura e pela escrita. E a história reza assim:
“O Rapaz que não se lembrava dos sonhos…
Havia no mundo um rapaz de cabelo grande e com caracóis. Claro que existiam já muitos rapazes de cabelo com caracóis, mas ele não era um deles. Este era o rapaz dos caracóis. Aos olhos do mundo ele era visto como uma pessoa como todas as outras. Aos olhos da mãe, expressivos e sinceros, ele era visto como a esperança em pessoa, era visto como o seu filho. E nada como saber que alguém nos espera para nos ensinar a viver, para nos chamar de filho… O rapaz dos caracóis não teve uma infância luxuosa mas teve uma infância rica; rica de amizade, de amor, de carinho. Teve uma pessoa que despertou em si o gosto pela leitura, pela arte e pelo mundo; e talvez a verdadeira riqueza seja isso: ter alguém que nos abra as portas para o bem e, desse bem, aprender a viver (ou pelo menos tentar).
Ao longo da vida o rapaz foi sonhando. Sonhava com os personagens dos livros, sonhava com uma bicicleta, sonhava com carros, sonhava com o seu futuro, se ia ser veterinário, psicólogo, professor. Mas o que ele mais queria era ajudar. Praticar o bem. Ter uma família. O rapaz cresceu e tornou-se num homem, e descobriu novos caminhos para novas experiências. Mas o mundo era -e ainda é- muito mau. O rapaz dos caracóis viu o que ninguém queria ver. Viu o outro lado do mundo. E depois de ter visto essas desgraças, incontroláveis ainda nalguns países, começou a esquecer-se dos sonhos. Mas ele ainda sonhava, ainda vivia o mundo da imaginação, o problema é que depois de acordar ele já não sabia o que tinha vivido, o que tinha provado na sua imaginação…
O odor do esquecimento infiltrava-se-lhe até aos ossos. O ar tresandava a esquecimento. Tudo isso gerava uma grande confusão no rapaz dos caracóis. A que se devia essa desgraça? Num país onde apenas sonhar é de graça, uma pessoa esquece-se dos sonhos? Talvez a esperança de um dia conseguir manter os sonhos presos dentro de si e poder passá-los para o papel, a esperança de um dia poder dar uma vida melhor às grandes mulheres que o criaram, a esperança de cumprir todos os seus objetivos de vida, talvez tenha sido a esperança que o manteve vivo. Enquanto o tempo passava a sua mente floria, os seus sonhos já não fugiam todos a sete pés, e construiu uma família. O motivo que o fez esquecer-se dos sonhos foi o mesmo que ele usou como pretexto para continuar a sonhar. Aquele rapaz dos caracóis tornou-se num pai exemplar, o melhor de todos eles. Talvez o destino precisasse de uma prova de que esse rapaz seria uma boa pesssoa, e ele provou que com a força da esperança tudo é possível. Ele era agora um homem forte, puro. O papá tem os pulmões cheios de céu.
Ella Stattmiller












