O Natal por quem o viu e quem o vê

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Como era vivido o Natal pelos nossos avós? Como passou a ser? Como o sentem hoje? Nesta época festiva o Tribuna das Ilhas abriu a caixinha das memórias, procurou perceber os sentimentos que a rodeiam. Maria Adelaide, Olívia Rodrigues, Carlos e Fátima Silva falam-nos do antes e do agora. O depois a Deus pertence, dizem.

Aos 82 anos Maria Adelaide Brandão passa o seu Natal a ouvir a missa e a rezar pelos que partiram. “O Natal já não me diz nada”, confessa enquanto espera que o fruto do seu ventre venha de visita no próximo mês. Nem sempre foi assim.

Nos anos 40 e 50 tanto ela como os seus dois irmãos viviam a quadra tal qual os tempos o permitiam. “O meu pai fazia um Altarinho ao Menino Jesus, punha uma razolha, uma toalha branca, o seu trigo a grelar. Eu ia buscar junquilhos, cheirava que consolava”, lembra contando que as laranjas, que compunham a ornamentação, apenas eram comidas após o Dia de Reis. Por essa altura os pais colocavam um molhinho de cigarro de chocolate, que era dividido pelos três filhos na noite de Natal.

À medida que o tempo passou, já com cerca de 20 anos, começou-se “a pensar em Árvores de Natal. Levavam até casa uma planta a que chamavam “Macaco”, de flor branca, colocavam atrás da cómoda, “púnhamos uns santinhos, uns arreliques e era assim”. Os enfeites eram feitos por eles, com cascas de ovo embrulhadas em “pratinhas de chocolate, que eu pedia porque eu cá não comia” e correntes de papel recortadas.

A Consoada era na casa da sua avó. ”Era uma família muito grande, a família do Brandão”. Matava-se uma galinha ou duas, “fazia-se uma canja para os rapazes, uma molha com batata para os outros e um bolo doce”. Maria Adelaide diz que “quando terminávamos de comer os pratos estavam limpinhos, não restava nada”.

Também nesta época era hábito os mais velhos irem “correr atrás dos ranchos”. Na freguesia da Feteira encontravam-se, por exemplo, na Sociedade Filarmónica ou no clube do senhor Fortuna. Os mais novos não, aliás mesmo dias não festivos “nunca sabíamos o que os mais velhos estavam a falar, íamos para a sala brincar ao Sapato ou ao Anel”.
À missa do Galo só começou a ir já adolescente, a acompanhar uma vizinha de idade. “Íamos de lanterna por caminhos em muito mau estado, com as nossas galochas que tirávamos antes de entrar na igreja”. “Na altura nem sapatos tinha. Nasci em 1939, depois da Guerra acalmar não havia muito trabalho. Nunca faltou pão mas era muito difícil”.
Depois de ter a filha “era muito diferente”, mas após o seu marido falecer não se lembra de ter voltado a montar uma Árvore de Natal. Hoje vive no Natal possível, mas a fé ninguém lhe tira.

 

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Maria Adelaide Brandão mantêm a tradição do Altarinho

Família reunida em torno dos avós

Também Fátima Silva decorava a árvore de Natal com cascas de ovos envoltas em papel prata. Utilizava pastinhas de algodão para dar mais um toque, algo muito diferente quando se vive em tempos “em que há tudo”.

Filha de uma mãe “muito religiosa, que vivia muito as coisas da igreja” tinha por tradição ir às novenas do Menino Jesus. Em casa a mãe “tinha muita paciência”: retirava tudo de um quarto, colocavam fardos de palha para fazer o presépio em cima e o irmão de Fátima, “muito habilidoso”, criava os bonecos e as casinhas.

“No ano do vulcão até fez [o irmão] um vulcão, pintou o algodão para fazer as colunas de fumo”, a isso ligou uma “engenhoca com uma manivela, quando iam ver o presépio lá a casa dávamos à manivela para acender as luzes”.

Na casa de Carlos Silva não se sentia a época festiva. “Para mim era como uma festa qualquer: ia às novenas, andava no pagode fora com os outros e pronto. Não havia qualquer sentimento”, relata à nossa entrevista.

“Depois de casado é que comecei, em casa de minha sogra, a fazer a Consoada e a partir daí tenho celebrado todos os anos”, diz-nos o ex-taxista. Desde então Fátima, de 74, e Carlos, de 76, construíram uma família que conta cinco filhos e 11 netos.

Todos os anos se encontram, antes do Natal, para o Dia da Árvore. Depois de adultos cada uma “faz a sua vida” e têm de passar também com os outros familiares a Consoada. Reúnem os rebentos assim que chegam da universidade ou de onde residem. “Quando tem os galhos todos é que faz sentido fazer a árvore.. Eu sempre os incentivei a ver que é através de Jesus que nascia a nossa árvore da vida”, declara Fátima. Apesar disso, na Noite de Natal, encontram-se sempre em casa deles para a troca de prendas. “É uma galhofa”.
Em relação ao passado recorda saudosa uma certa noite em que o marido organizou com a família um rancho de Natal inesperadamente e percorreram casas de familiares e amigos. “Não tive muita juventude porque comecei a trabalhar cedo e fui mãe muito nova, mas depois de ter os meus filhos vivi tudo com eles”, acrescenta.

Em 2021 considera haver “consumismo a mais”. Vale-lhes a dinâmica familiar e a felicidade que lhes traz conseguirem reunir-se, ano após ano. Ainda assim custa a Fátima ver que os mais novos “têm tantas coisas que já nem ligam ao brinquedo que abrem, ficam logo à espreita a ver se o Pai Natal traz outro…” Assumindo-se regrada, alguém que faz tudo sem exageros, preocupa-lhe o que viverão os mais novos. “Este nível de consumo não se manterá para sempre”, conclui.

 

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Fátima e Carlos Silva reúnem a família no Dia da Árvore

“Nesta instituição vive-se muito o Natal”

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Olívia Rodrigues

Olívia Rodrigues, que reside no Centro Comunitário do Divino Espírito Santo, não tem nada a apontar de como se vive a quadra na instituição. É um dos exemplos de quem, mesmo institucionalizado, passa o Natal com os seus, neste caso com as sobrinhas.

Hoje, aos 78 anos, tem vívidas memórias de menina. De origens humildes lembra a mãe a fazer um Altarinho com o trigo e as velas. “Quando estávamos a dormir [ela e a irmã], colocava cestinhos com figos passados e levantávamo-nos, íamos logo a correr ver o que o Menino Jesus tinha deixado”, e arranjavam forma de dividir com os vizinhos. Na Consoada comiam canja e molha de galinha com batata, “para render”.

Iam à missa da meia noite, ouvir o sermão do padre Adriano, e à medida que foram crescendo manteve-se o hábito independentemente do padre.

As prendas foram evoluindo com o passar dos anos. De figos chegou-se a “uns sapatos, um pullover”. Ainda assim, quando havia menos, Olívia tem a impressão que “éramos mais alegres e sinceros uns com os outros”. “Agora as pessoas vivem numa pressão, querem mais que os outros, há muita inveja, antes eram mais humildes e agora têm tudo e mais alguma coisa e nunca estão bem” acredita a ex-trabalhadora do Dispensário e do Centro de Saúde da Horta.

A sua vida deu uma enorme volta em 1998. Com o sismo de 9 de julho ficou sem casa e sem o restaurante “O Luís dos Chicharrinhos”. Pouco mais de um mês depois faleceu o marido. “A minha vida foi de 1000 para zero, era muito social. Não era só trabalhar, também era conviver com as pessoas”, recorda lembrando que na noite do terramoto a sala tinha sido reservada por trabalhadores do hospital que de lá saíram bem comidos e bem bebidos. Notam-se as saudades daquele tempo e do seu marido. Nota-se que no meio do trabalho sentia muita felicidade, algo que ainda hoje irradia.

Com a filha a viver longe, e sendo hipertensa, surgiu a necessidade de estar no Centro de Dia e no Centro de Noite dos CCDES. Não podia estar mais satisfeita. “Nesta instituição vive-se muito o Natal, fazemos muitas atividades físicas e mentais”. Como mulher ativa que é aprecia o facto dos utentes “não estarem só sentados numa cadeira”. Para estas festividades preparam o presépio e o Altarinho. No dia da nossa visita estavam a preparar as sobremesas para a festa. Às sobremesas somam-se as colaboradas, “que são umas doces” e asseguram que a comida e limpeza estão “como devem ser”.

São memórias, algumas delas que se cruzam. De qualquer modo, há um traço caracterizador: com menos parece que era mais honesto e sentido.

Será que ainda sabemos o que é o Natal?