“O ponto de encontro entre a criação artística e a vida vivida talvez esteja naquele espaço privilegiado que é o sonho -”Antonio Tabucchi

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Este é um lugar para estremecer, mapa do arrepio, simples coisa enigmática, sonho que se avulta, alma que se esquece. No timbre do brilho, lembro a surda saudade que és, os poucos indícios que são os que te pensam astros e espírito, lua com a residência em greve. Amo o mar como quem bebe a sede em transe, a vaga maternal da fêmea que cobre e se recolhe e se recrudesce no arguto perfume donde nasce.

Sinto a febre, nervo na ramagem da pele, uva esquiva em seu fermento, pão que amadurece, a ruga visível da idade, ave paciente a subir para o universo, semente, esperma, útero profundo rindo-se da morte. É uma pena leve, um peso de pé sobre a água, a prateada escama e a vermelha guelra de um peixe respirando obscuramente.

E amo daqui a minha altura, esta minúscula estatura de homem. Eu sei que se inadequa em mim alguma garantia para que mereça as tãos finas constelações que são as palavras, esse feixe de luz que torna puro o ato que é sozinha a própria vida, e a coragem e o respeito que é exercê-la em matéria mas que é também respirá-la assim, em sonho, em nome  do amor que é surdamente sonhar, da esperança que não míngua e é traduzível e sofrível, que é esse emparedado castigo onde se cresce com palavras diurnas e sangue e mazelas na própria fronte. Que pena este amor não esteja sentado legivelmente quando saio às ruas e toco as mãos das pessoas, e rio aos seus risos, e falo às suas vozes, que pena não esteja claramente figurável quando a miséria me toca, como pedras dentro dos ouvidos, e eu choro, e eu suplico e há um silencio estranhamente obsessivo em meu redor, que pena não me falem de repente quando eu preciso de um ombro humano e cheio de perguntas como o meu, onde possa estender as minhas lágrimas e esfriar os meus gritos.

Decifro agora enquanto durmo e procuro incansávelmente quando o meu corpo acordado endurece e a realidade me entra pelos olhos como garfos, e me queimam os ruidosos fogos da injustiça e eu me sento e só tenho perguntas. Uma consciência interior questiona:

 Porque queres respostas? Porque temes as perguntas? Porque tens tanto medo de olhar em teu redor?

E diz:

– Repara, és um homem e de luto brilham-te as mãos, substâncias carnais tão sensíveis ao sangue, que puxam mágoas pelos homens e ateiam incendios com sofreguidão. Nem a ti te chegam os bichos em sua ignorância animal. Estranho odor terás para que os afugentes.

Voltam-se ríspidos para a luz mal o pressentem e cegam partidas com rigores que não se descreve. Estranho que te alegre tanto esse facto e que te entregues a eles com devotados empenhos. Estranho, também, o magma, a dureza telúrica onde escurece a matriz mineral das tuas entregas. Pálida vida a que tu governas e na qual se misturam a frieza das armas das tuas conquistas e a esquálida magreza de quem as carrega.

Entrelaço os dedos e com eles desvio o pavor de estar sentindo essas falas interiores, rindo-se. Imagino como podem elas rir de alguém que lhes fala tão sofrido. Porque se esfriam perante o que sinto e digo, onde está esse amor paternal que tanto evocam. Um pai ríspido é um ramo a açoitar-nos, a negação do que se acredita ou se ambiciona nessa amizade que nos toma desde as insabedorias da vida. Porque não proferes uma única palavra que seja, que ao menos me aponte as incertezas das minhas? E se têem, eu as expuz perante ti com a verdade com que me crescem e me magoam e me geometrizam nas cinzas com que por vezes me cobrem. Salva-me delas, dos dentes animados dos seus punhais, das aves taciturnas que são na minha cabeça. Não quero provar mais dos seu venenos, nem ouvi-las no chumbo que sangram em meu peito. A voz move-se, então, mais para perto. Para que a  sinta no imparável movimento do mundo. Calo-me e ela continua:

– Vive. Consuma-te. Sê a braçada que o braço permite e a mão alcança.

E retomou novamente o curso do silêncio, a cama comprida desse mar. E eu falando como uma esfinge num enorme bocejo. Acalma-te, pede-me.

Estou coberto pelo silêncio, aberto como um foco abstraído e desorientado, mas delicado nessa dança. E a paz não é branca, é alva e imponente e sinto um odor róseo de pé sobre mim, um perfume divino e inerte, um sino que se redobra em tons que não são metálicos mas líquidos, marulhados, cantados a cada passagem. O colo da consciência não é quente. É fundo e único, é uma vontade, um músculo inacabado e expressa-se com dignidade quando nele rimos ou choramos. Cresço para dentro resgatado a mim mesmo, ao conhecimento dos desconhecimentos, à honra da ingenuidade porque não existe caminho aqui para a ignorância, para o desconfiado, para o ambicionado e tão sómente para aprofundidade inteira e indivisível de uma química rural nas suas técnicas enérgicas de simplicidade. Uma função primitiva, uma matemática inexata. De tudo me usurpa esta força. Estar vivo assim é inconfundível como estar morto seria inimaginável. E o sonho é um volante brilhante, lento, alto, a conduzir-me para os caminhos de mim mesmo. Não é uma viagem, mas uma viragem onde ficará só por saber se, em síntese, a terei vivido ou apenas a terei  escrito.

 

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