O Ponto de saturação

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O charme funciona, em determinados momentos, como um atributo fundamental de um líder, quando outras capacidades não sobressaem ou não existem. Foi isso que aconteceu com Passos Coelho quando se apresentou a eleições, com um ar jovial, uma franja aloirada, que seduziu muitas mulheres, e um discurso fácil e promissor que cativou o eleitorado.

Os portugueses foram na cantiga e durante algum tempo mantiveram a chama acesa. Quando o jovem dirigente e a sua equipa começaram a titubear, o estado de graça absolveu as incongruências. Com o decorrer dos meses, as dúvidas passaram a certezas: os atores eram tão maus que se baralhavam nos papéis e tornou-se evidente que não andavam a falar verdade. As promessas que haviam feito sumiram-se pelo cano do esgoto, as esperanças que haviam semeado foram arrastadas pelo vento, a ideologia conservadora e neoliberal veio à tona de água e impôs-se a toda a prática governativa.

A crise, que entretanto se foi aprofundando, serviu como um pretexto para tomar medidas de combate ao Estado Social. As posições agora assumidas pelo Tribunal Constitucional funcionaram como mais uma desculpa para continuar esse rumo.

 No Orçamento do Estado de 2012, apesar dos avisos feitos pela oposição e muitos outros setores da sociedade, o Governo insistiu em apresentar um orçamento ferido de várias inconstitucionalidades. Os juízes confirmaram o veredicto e deram-lhe um puxão de orelhas. Mas até o fizeram de forma benevolente ao não aplicar o castigo naquele ano. 

Mas o nosso Governo, tão obediente e submisso face aos poderes do exterior, resolveu ostentar a arrogância. O orçamento de 2013 retomava os mesmos vícios do anterior e aprofundava outros. Estaria o Governo à espera de nova benevolência por parte do Tribunal Constitucional? Como não acredito em ingenuidades, acho que foi mesmo uma provocação para arranjar um bode expiatório.

Armado em vítima, o Governo lança-se agora, de forma cega, ao ataque na redução das despesas e as três áreas mais sacrificadas voltarão a ser a educação, a saúde e a segurança social. No fundo, prossegue o rumo que já vinha sendo tomado, com a desculpa de que é preciso tapar o buraco aberto pelos “malandros” do Tribunal Constitucional. Não estou contra a tomada de medidas que visem sanear as contas públicas; o que não vejo é coerência e uma estratégia que conduza à solução do problema. 

Um problema que, independentemente das decisões do TC, já estava instalado. Por culpa do Governo, cuja política foi desastrosa, e por culpa daqueles que traçaram o plano de “salvação” do país. Quando os próprios arquitetos já reconheceram que os alicerces eram defeituosos, de que é que estavam à espera? Mas o mais grave é que não se mostram dispostos a mudar de orientação e refazer os planos; o mais grave é que o governo português em vez de solicitar uma mudança de agulhas persiste na sua filosofia de dar cabo do Estado Social e de continuar a sacrificar os mais sacrificados. É uma opção ideológica que já não deixa margem para dúvidas: uns e outros afinam pelo mesmo diapasão; uns e outros reiteram a teimosia de levar a experiência até ao fim. 

O resultado está à vista: o fosso está cavado e até parece que a própria natureza nos dá sinais dessa evidência, abrindo crateras por esse país fora de dimensões inusitadas. 

A crise económica e financeira arrastou consigo estados de depressão psicológica e de abatimento físico que conduzem a situações desesperantes. Não confundir esta falta de força anímica com a que afeta o ex(?)- ministro Miguel Relvas.  Essa é outra estória. O que afeta os portugueses é a insegurança, a inquietação, o medo. Ninguém já sabe se, ao deitar-se, acorda no dia seguinte com o emprego garantido, a mesma reforma, o mesmo salário, os mesmos impostos, a mesma taxa moderadora ou até a mesma família, com a debandada que por aí vai para outras paragens.

Os portugueses estão a atingir o ponto de saturação. Não sei que saídas entretanto poderão surgir, mas pelo andar da carruagem temo que o desespero não seja bom conselheiro. 

 

 

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