E a pessoa vem chegando de mansinho, conversa fiada, aquela coisa do tempo e, de repente, despeja o essencial. “ Tenho um segredo para guardar”
E, aí, fica-se de pé atrás, orelha no ar, conjecturando. A lembrança do esquecimento de alguma coisa importante que ainda não adivinhamos qual. Como assim ? Um pedido sem ponto nem vírgula, segredo pedido por debaixo de cílios abaixados, conferindo-nos a qualidade de cúmplices, num instante único. Um segredo para guardar? Como, porquê e onde?
E, assim, pensa-se primeiro onde se guarda um segredo. Nas tais caixinhas enigmáticas que existirão ou não? E, se existem, aquela pessoa não terá adquirido uma? Ou será que essa que possui está tão cheia, que não tem mais espaço?
Quando a pessoa chega com toda aquela conversa de treta, passa-nos pela cabeça, numa correria, um montão de ideias e imagens, vindas a caminho de lugar nenhum. E o segredo ali, prestes a sair do forno.
Antes de sair o segredo, é conveniente saber se ele pertence àquela pessoa ou se já andou de mão em mão. Sim, porque há muita diferença entre um segredo virgem e um segredo viajado. Este último pode trazer muitos dissabores.
Depois, já com os neurónios em franca actividade, interrogamo-nos se o segredo será de verdade e é pertença daquela pessoa, não tem que pedir a ninguém mais para guardar, porque então deixa de ser segredo. Cada qual que guarde os seus e ponto final.
Detesto segredos. E há muitos. Os nossos, os dos outros, e os dos amigos dos outros. Por que carga d ´água alguém tem de se tornar depositário dum segredo não seu? Cada qual guarde o seu e… olhe lá, dá um trabalhão. É que segredo é das coisas mais difíceis de guardar. Se o deixamos por aí à toa, ele, vadio, esfuma-se na roda da vida e tudo bem. Mas, se o fechamos a sete chaves, é o pior. Ele leva um tempão buscando uma frestinha para escapulir e, um belo dia consegue abrir o cadeado. É então um regabofe. Soltou-se, rompeu amarras, tornou-se público, prepotente, rindo desalmadamente das reacções dos guardadores. É o fim!
E, é assim que nascem muitas brigas, desentendimentos, confusões, malquerenças.
E, repito, não gosto de segredos. Não mos entreguem. Não posso guardar mais. Já tenho um depósito deles. Sem cadeado. À rédea solta lá dentro. E, acreditem, eles mesmo sem sair, dão uma trabalheira. Para os acalmar, silenciar, para não destruírem a minha sanidade mental.
Amigos, coragem, guardem os seus segredos. São vossos. Vossos mesmo. Façam com eles o que lhes aprouver. Bom proveito. Se são d´outra pessoa, devolvam. Rápido. Não dão lucro. Os miseráveis!
Ainda se guardam segredos, que rendem fortunas. São as excepções à regra. Escutas telefónicas, pastéis de Belém, doces conventuais e alguns outros bem mais amargos. São exemplo não só de valor, mas de que segredo é segredo. Nem ao melhor amigo se deve contar. Até mesmo o melhor amigo, muitas vezes, é aquele que na horinha em que mais confiamos nele, ele aproveita para nos cravar o punhal nas costas.
A vida é uma trama danada, só Deus sabe!











