Olhar para a Grécia … e trancas à porta

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1. A 5 de Junho de 2011, Portugal foi a votos. Na altura, escrevia eu nas páginas deste semanário que “somos nós, com o nosso voto, que vamos determinar o nosso futuro e a nossa sobrevivência como estado viável.”

Na altura, tratava-se de escolher entre José Sócrates e Passos Coelho, entre quem tinha conduzido o País à bancarrota e à capitulação, mendigando a ajuda externa, e quem se propunha regenerar Portugal.

Nessa minha crónica, escrevia eu que “José Sócrates não é uma figura recomendável para o nosso futuro. Do seu passado como governante, já todos aprendemos uma coisa: ele e a ética da verdade são incompatíveis. Entre a verdade e a ilusão, entre a verdade e a propaganda, entre a verdade e a omissão, entre a verdade e a mistificação, José Sócrates nunca escolheu a verdade!

E se há valor que os Portugueses têm de exigir para o futuro é o de lhes falarem a verdade e não esconderem a situação do País! 

Se a ética da verdade é, como devia sempre ser, um valor indiscutível, neste momento ela é sobretudo uma necessidade nacional urgente.”

2. Estava eu, na altura, longe de adivinhar não só os desenvolvimentos futuros sobre José Sócrates, mas, sobretudo, de prever que a necessidade de uma “ética da verdade” se voltaria a colocar com especial premência para as eleições que se realizarão no próximo mês de Outubro.

Com efeito, aquilo que vou concluindo é que o problema do relacionamento com a verdade, afinal, não era só de José Sócrates, mas sim da estrutura, modo de funcionamento e mentalidade da maioria da geração que controla o destino e as posições do Partido Socialista. Como escreveu Zita Seabra, «Eles acham que são os donos do país. Portugal é deles. O Estado pertence-lhes. Vale tudo. Estão acima da lei e das deontologias. Não conhecem ética em política, nem educação. Não sabem o que é o Estado de direito. São filhos diretos de Maquiavel porque agem sempre como se os fins justificassem os meios.»

Por isso, não é por acaso que António Costa foi membro do Governo de José Sócrates e só saiu para se candidatar à Câmara de Lisboa. Comungam de ideias, de práticas e de princípios. 

Não é por acaso que António Costa e os seus colaboradores nunca se demarcaram de Sócrates e, antes pelo contrário, mantêm surrealistas romagens a Évora. 

Não é por acaso que os rocambolescos e recentes episódios dos cartazes de campanha eleitoral do PS falsificavam “histórias reais” com funcionários de uma junta de freguesia socialista que não estavam na situação que se lhes atribuía.

3. Aquilo que se tem passado no PS sobre as candidaturas à Presidência da República é bem ilustrativo da meia-verdade, do ziguezague, do cultivo da indefinição e da ausência de rumo. António Costa começou por acolher Sampaio da Nóvoa de forma desportivamente satisfeita e comprometida. Seguiu-se o seu delfim, Carlos César, que nos Açores, na cidade da Lagoa, conseguiu que fosse dado a Sampaio da Nóvoa tratamento protegido e destacado quase como o de candidato do PS a Presidente da República. Depois, Sérgio Sousa Pinto demarcou-se de tal candidatura, assumindo que ela era fraturante no PS. O entusiasmo de César desapareceu; a satisfação de Costa escondeu-se no refúgio dos timings. E Maria de Belém assume ainda baralhar mais as coisas e suscitar a clarificação de António Costa e do PS. 

Como escreveu Maria de Fátima Bonifácio, “tanto tacticismo, ou mais exatamente, tanta oscilação, tanta falta de rumo e, para dizer a verdade toda, tanto oportunismo, revelam um carácter. Surge a pergunta  inevitável: podemos confiar em António Costa?”

Podemos confiar em quem hoje diz uma coisa e amanhã outra? Podemos confiar em quem pensa conforme a ocasião ou o momento? Lembremos, a título de exemplo, só o que disse António Costa, quando, na Grécia, o Syryza acabava da vencer as eleições: “Vitória do Syryza é um sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha.” Pois não foi preciso esperar muito para, depois de se confirmar o aventureirismo irresponsável de Varoufakis, António Costa, esquecer as loas que havia tecido e afirmar que “o Governo grego foi de enorme imprudência.”

É por muitas destas que os novos cartazes do PS soam a falso quando invocam “Confiança”!

4. Passos Coelho cometeu naturalmente erros neste seu mandato governativo. Não morro de amores pela faceta obstinada do seu carácter, nalgumas dimensões. Mas reconheço que se não fosse a sua perseverança, a sua persistência e a sua confiança nas virtudes do caminho que estava a seguir, Portugal tinha caído no abismo. Se tivesse seguido o canto das sereias que diversos políticos e comentadores (alguns até do seu próprio partido) entoavam, Portugal estava hoje igual ou pior que a Grécia. Quando Passos Coelho dizia, na passada semana, referindo-se à Grécia, que “hoje as pessoas têm o filme todo à sua frente do que podia ter acontecido a Portugal” tem toda a razão.

Por isso, quando formos votar em Outubro próximo, teremos de escolher entre as dificuldades de um caminho que se conhece e que deu resultados e as miragens de proféticas alternativas que levaram a Grécia e os gregos ao que todos os dias vemos e que nenhum de nós deseja para si; teremos de escolher entre a persistência de Passos Coelho que, perante as dificuldades, mantem o caminho, e a errância de António Costa, que, à primeira contestação, muda de opção.

A escolha será de cada um de nós. Com uma certeza: depois de colocarmos a cruz no boletim de voto…de nada vale pôr as trancas na porta…

 

 

 

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