Os dias festivos da matança

0
11
TI
TI

Era domingo e chegara a hora do porco ser abatido.
Os homens vieram cedo, munidos de cordas, facas e raspadeiras. Comeram figos passados e beberam uns tragos de aguardente para iludir o frio da manhã. Depois dirigiram-se ao curral do animal. Avaliaram o peso e o aspecto do suíno. Este fora bem “criado” durante um ano, e, pelo Natal, estava anafado, à custa dos milhos, das batatas doces, dos mogangos, das farinhas e das lavagens.
O porco era então “aperneado” e estendido sobre um banco de larga tábua. O marchante metia-lhe a faca, direitinha ao coração. O sangue jorrava aos borbotões, tingindo de vermelho a mão do operador, e era recolhido num alguidar de barro.
O pobre suíno guinchava longa e desesperadamente na agonia mortal. Cada vez mais a custo ia estrebuchando, resfolegando e gemendo, até que de todo ficava imóvel, inerte. Estava morto. Em seguida (e numa altura em que o berbequim ainda não havia sido inventado) chamuscava-se-lhe o pêlo com vassouras secas de urze em chamas, primeiro de um lado, depois do outro… Com facadas tirava-se o pelejo e depois, com raspadeiras apropriadas e água em abundância, alvejava-se-lhe a pele. Virava-se agora do outro lado e procedia-se por igual modo. E pronto! O porco estava todo liso e branquinho.
Entretanto as mulheres, já de mangas arregaçadas, iam cortando cebola e salsa, entregando-se aos preparativos da matança.
E nós, os pequenos, andávamos no quintal nas correrias e na retoiçada… Não queríamos ouvir os grunhidos aflitos do porco. O que era inevitável era sentirmos o cheiro acre do pêlo queimado ao ser chamuscado.
-Ao alto! – ordenava o marchante. E, num corte longitudinal, abria o ventre e toda a parte dianteira do porco, do pescoço ao ânus. Retirava as entranhas: o fígado (que ia logo para a cozinha, pois faria parte do almoço), os bofes, o coração e finalmente os intestinos.
As banhas e paredes internas do porco eram muito bem lavadas, até ficarem livres do menor rasto de sangue. Só então o porco era removido e pendurado pela cabeça numa trave da cozinha. Uns pedaços de cana aguçados nas extremidades mantinham o porco aberto, tanto à frente como atrás, e, deste modo, todos podiam medir a grossura do toucinho. “Quanto mais porco, mais toucinho”, dizia-se.
Em dia de matança era um tal fazer partidas. Por exemplo: pregar o rabo do porco nos fundilhos das calças do Joaquim Arregaça, ele que enchia de ar a bexiga do suíno para nós jogarmos à bola.
As mulheres confeccionavam as iscas e as morcelas depois de terem procedido à lavagem das tripas e à consequente esfrega com laranjas azedas, limas e farinha.
À noite vinham os familiares e os convidados, comia-se morcela e debulho e bebia-se do melhor vinho caseiro. Nos dias seguintes, segunda e terça feiras, eram servidos torresmos de toucinho, torresmos de vinho e alhos e sarapatel. E só a partir de quarta-feira é que éramos obsequiados com as apetecidas e apetecíveis linguiças.
Nesses dias não faltavam as cantorias. Não me esquecerei do Juven-tino Ramos a cantar à porta de casa do meu avô, em noite fria:

Hoje é dia de matança
Comida não há-de faltar,
Pois eu tenho na lembrança
Que muito tens para nos dar.

As cantorias prolongavam-se pela noite dentro. Algumas paixões amorosas também…

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO