Os Problemas da Democracia

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Decorreram recentemente as eleições legislativas regionais, cujo processo fui acompanhando à distância, estando presente em corpo somente no próprio dia do voto.
O andamento das campanhas, o dia da eleição, os eleitos e as reacções daí resultantes suscitaram-me uma série de reflexões, sobretudo relacionadas com o mau estado encapotado da nossa Democracia, tanto por culpa de quem elege como de quem se faz eleger. Basta para isto ver a elevadíssima taxa de abstenção que, mais uma vez, se verificou. Mas é tão preocupante o facto de a maioria das pessoas não cumprir os seus deveres de cidadania como isso não ser o principal foco de atenção pós-eleitoral do poder político. É tão preocupante haver quem diga “Vou votar no Partido X até à morte” como quem afirme “Ganhou o Y? Então vai mudar o presidente da Junta?”. É que a generalizada falta de interesse e de cultura política não parece preocupar quem representa nem quem se faz representar, por interesse de uns e desinteresse dos outros.
O que causou aparente preocupação, pelo menos a alguns faialenses, foi o tal resultado em que ficou tudo na mesma mas os primeiros passaram a segundos, e que pode ser realmente a demonstração de uma insatisfação com quem está no poder. Creio que num destes escritos comentei a questão do aeroporto e da manifestação que decorreu há alguns meses. Nesse contexto, na Assembleia Regional mas não só, os nossos representantes eleitos vieram a público pretensamente defender o Faial e as suas necessidades e reivindicações. O problema é que passaram a maioria do tempo a arrolar os defeitos e falhas do outro partido, a ver quem tinha mais responsabilidades na questão. Feito o balanço, como (infelizmente) é normal nestas situações, a discussão resumiu-se a uma batalha pela defesa de dois partidos, cada um a puxar para o seu lado, numa espécie de maniqueísmo absurdo em que quem não está do mesmo lado da barricada está necessariamente errado. E quem devia representar o Faial e os faialenses (para não dizer os açorianos em geral) ficou-se por defender o partido. Por estas questões, já antigas, tenho desenvolvido nos últimos anos uma espécie de alergia a partidos políticos (sobretudo por causa dos partidarismos ridículos em que se cai), que já me alimentou alegres discussões que tenho pena não caberem nestas breves linhas. Nalgumas situações (como nas autarquias) sou mesmo (idealmente) contra os partidos. Não que tenha alguma coisa contra essas instituições ou, muito menos, contra as pessoas que as compõem (com desonrosas excepções…), mas ter uma câmara ou uma junta de freguesia liderada por uma força partidária acaba mais tarde ou mais cedo por resultar em qualquer prioridade para o partido que para a autarquia.
Mas nem tudo são problemas. Para dar um caso (que me pareceu) bastante positivo, vimos um deputado eleito pelas Flores, por sinal o primeiro entre os três mandatos daquele círculo eleitoral, afirmar que estava a representar os seus eleitores e não o partido (que para mais não preencheu mais nenhum mandato a nível regional). Não conheço o candidato (agora eleito) nem o caso em detalhe, mas pelo que se pôde ver fiquei com a ideia de ser um caso óbvio de voto na pessoa e não no partido. Nada contra (nem a favor) do partido em questão, mas, a verificar-se o caso (o tempo o dirá), é o tipo de deputado que se devia eleger mais. Infelizmente, nalguns partidos pelo menos, já houve casos de quem representou os seus eleitores ou provocou consensos e acabou afastado…
É o estado da nossa Democracia.

Imagem: Postal alusivo à “Proclamação da Republica Portugueza / 5-10-1910”, com os membros do primeiro governo provisório, liderado pelo açoriano Teófilo Braga. Impresso em França, com imagem datável de Novembro de 1910. Col. do autor.
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).