PARA ONDE FOSTE, PORTUGAL?

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Escrevendo esta crónica, penso na minha professora primária, que tendo o condão de fazer o milagre de sintonia entre alunos, tentava evidenciar o “ orgulho de ser português”

E, nós, alunos, ouvindo enaltecer feitos heróicos de reis, navegadores, capitães, Aljubarrotas   e  Salados, Roliças e Vimeiros, de mistura com rios e afluentes, caminhos de ferro e ramais, serras, sistemas métricos (não fossem estes, a minha escolaridade teria sido mais colorida) , fomos crendo que ser português era um orgulho.

E, anos volvidos, fui entregando aos meus alunos o legado, ensinando-lhes, como reza a história – fomos tão longe. Pois é! Fomos! E estamos tão longe. Concluo que a história tem por vezes ataques epilépticos. E, neste momento, estamos sendo acometidos por um. 

 A recessão económica que estava no horizonte, caiu sobre os portugueses. A época das esperanças terminou e, aí, os impasses insolúveis. aquele orgulho fez-se vergonha. 

Agora, reduzidos aquele rectângulo entalado entre o atlântico e o tal vizinho, estamos tramados. Somos lixo. E, a propósito, se somos lixo para quê tantas visitas uma vez que quanto mais se remexe… Bem, concordo, o lixo português tem buracos importantes…E andamos acabrunhados .  E temos uma alemã às canelas. E a troika ( adoro dizer esta palavra – troika).

Parece que Portugal não se deu bem com a Europa. Mas, onde estaria antes? Na Ásia, na África, no Equador? Será que Portugal é um país móvel ? Se é, por que carga d´água não se encaixou noutro sítio? 

Como o português é pacato, bonzinho e bem mandado, foi confiando, sem desconfiar, até que um belo dia acordou com  um sentimento de abandono, porque, aí, apercebeu-se do limite. E então o pânico de se saber atraiçoado e que discursos ouvidos se tinham dissolvido no ar, ditos no gelo.

Esfregou os olhos e a maldade que tinha encharcado o sistema, surgiu nítida. Não se sentiu bem no vácuo em que se havia acomodado com tanta impunidade reunida à sua volta e defendida com cinismo. Mas, português é português e como tal bonzinho e acomodado. Podem retirar subsídios, diminuir vencimentos, reduzir pensões, aumentar impostos, fazer despedimentos, largá-lo debaixo da ponte, que ele vertendo algumas lágrimas e pingando uns dós de peito, continua  cantando o fado,  vendo futebol, comendo caracóis, e bebendo uma imperialzita.

Para cúmulo, deixaram-nos analfabetos. Voaram assentos, letras, aspas, hifens… uma mescla! Ficamos mais pobrezinhos, mais tadinhos , mais nhém- nhém- nhém…

 Reverter a situação? Impossível! Não há mais 40 fidalgos a caminho do Terreiro do Paço, matando Vasconcelos e expulsando duquesas de Mântua. Para já, fidalgos, não temos . Terreiro do Paço tem outras funções. E, em Belém, a música é outra. Dá – a o presidente uma vez por ano lá nos jardins do palácio. É o must. 

Nos restantes 364 dias do ano, o português passeia-se por outros jardins  ( de preferência aqueles frente aos Jerónimos) e, um ou outro, a quem ainda não lhe limparam os bolsos, lá vai degustar um pastelinho de Belém. 

Afinal, português é feliz! Invejosos os outros! Quem mais tem à disposição um jardim, frente  um mosteiro,  ao lado o pastelinho e logo a seguir o senhor presidente? É o quatro em um . Nem na melhor superfície comercial há tanta oferta. Apesar de tudo é aconselhável, ao viajar para o estrangeiro, disfarçar um pouco, não vá o diabo tece-las.

 Obs. Aproveito para informar que não pretendo aderir ao tal acordo ortográfico a não ser que o computador me passe alguma rasteira

 

            

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