Passado presente….

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A página em branco torna-se um monstro, caso a coloquemos na frente num daqueles dias em que os neurónios resolveram entrar de férias. Aconteceu-me isso um dia em que me esqueci de escrever a crónica e uma empregada do jornal à última hora veio pegá-la. Atarantada, pedi-lhe que voltasse mais tarde, mas ela que não, que não, que esperava, que tudo bem. E ali ficou frente a mim, enquanto eu, sem assunto, me sujeitei, ao vexame de rabiscar algo com o título “ Taran-tan-tan”. E, o mais incrível é que depois gostei do que escrevi, o que nem sempre acontece. São coisas!

Bem, hoje tinha uma crónica muito alinhadinha, mas não sei porquê levantei-me pensando naquele diretor do jornal de Beja, com o qual mantinha uma modesta colaboração e que, naquele dia resolveu murmurar à minha saída esta frase, como se dita para si próprio: “preciso tanto de alguém que me escreva sobre mineiros e pobreza alentejana”

Voltei para casa remoendo a frase. Seria um desafio para mim. Ele sabia que eu era nova demais, sem traquejo profissional para tal assunto. Além de tudo, um ano de Alentejo, longe de sítios mais carenciados, não me ofereciam nenhuma matéria. 

Conversei sobre o assunto na casa onde estava hospedada e logo surgiu a ajuda:-Levo-a às minas de S.Domingos. E levou. Fez-me um favor, é certo, mas é certo também que tive ganas de o matar. Aquilo lá em baixo, penso, devia suplantar o inferno. E a minha claustrofobia atingindo os limites. Quando me vi cá fora, lembro que olhei para ele e só pedi que não falasse comigo nos anos mais próximos. Claro que isso foi assunto para muitas risadas naqueles serões de inverno. A figura que devo  ter feito!

Após isto, sòzinha, comecei a contatar trabalhadores rurais. Daqueles que trabalhavam de sol a sol, por conta dos lavradores ricos. Homens e mulheres. Comendo pão com azeitonas e bebendo água do tarro, já quente. Fui acumulando frangalhos dos seus discursos, suas preocupações, seus horrores quotidianos, suas vidas. Fiz caminhadas, pisei o chão de suas casas, feito de excremento de vaca. Enfrentei esse cheiro, o fumo, o suor, o sabor do gaspacho pobre, servido numa tigela grande com uma colher de pau para cada um. Era a miséria ao mais alto nível, servida com grande dose de carinho e respeito.

Regressei a Beja pensando que aquela treta de “ comerás o pão com o suor do teu rosto”, terá sido a primeira praga que caíu no mundo. E assim a fome terá começado a inspirar guerras e estatísticas. Quem nunca sentiu transforma-a num assunto alheio. Das lutas contra ela só as estatísticas sobram. Aos que tem fome não vale a pena servir a esperança.  E aqueles que não cedem ao outro o seu pedaço de pão, não precisam morrer para chegar ao inferno. Porque já estão nele. Basta o olhar dos pobres, encarando-os de frente.

Emocionada, desesperada e… convencida ( é feio dizer isto, mas a idade desculpa) lá parti com a minha crónica para o jornal. O diretor, que no meu entender já era velho “teria quarenta e tal anos, imaginem” leu, releu, olhou de frente para mim e disse: senhora professora, parabéns, a senhora parece alentejana, parece conhecer esta gente há muito, mas tem aqui dois problemas. Primeiro, o jornal é pequeno para a sua crónica; segundo, a senhora conhece a comissão de censura? A primeira eu resolvo e a segunda eles vão atrofiá-la. Atrofiar-me? O que é isso? Ele explicou. Há sempre uma caneta azul e há a sua profissão em risco.

Quando saíu a crónica que eu tinha escrito com todos os condimentos, com toda a verdade ali escarrapachada, não a conheci. Tinha encolhido como saída duma máquina de lavar, quando não acertámos no programa. Pedaços dela pareciam uma redacção da primária. Tanto trabalho, em vão!

Pior que tudo isto é que eu, na minha ingenuidade refilei com o director do jornal. E, continuei escrevendo, sem ter um lapso de inteligência, para entender, pedir desculpa e agradecer. Falha minha. Não tive discernimento para pensar que, não fosse ele a minha história seria outra. Para além do “visado pela comissão de censura” a vida de Maria Antonieta atrás das grades teria sido o fim das crónicas, das vaidades.

Ainda sem a lição bem aprendida, sucedeu-me um caso estranho. Na frente da casa onde estava hospedada, morava um aluno meu, filho de um GNR. Eu tinha o hábito de ouvir à noite a rádio Moscovo.

Certo dia, regressando das aulas, deparo com o pai do meu aluno, pedindo desculpas mas aconselhando a que tapasse com uma toalha grossa a telefonia, para que se não ouvisse na rua o programa, uma vez que havia por ali pides à solta. Agradeci e esqueci o assunto. Mais tarde soube que era ele o chefe da pide naquela zona. Ingenuidade minha.

Como ingénua fui a quando as primeiras eleições em Beja, ao entregarem-me um só cartão para enfiar na urna, eu refilei, exigindo um outro cartão, pois achava-me no direito de escolha. Só então, olhei um colega meu, mais velho, fazendo-me sinais para que me calasse. Parecia um telégrafo. 

Lembro que nessa noite, me ofereceram um jantar de, não lembro quê, mas que tinha lebre, tinha. E foi essa lebre, que nunca tinha provado antes, que me desviou aquele humor de cão que me assola, quando alguém tenta fazer de mim, idiota.

Ainda hoje, pensando em Humberto Delgado, lembro isto e muito mais que, ao longo da vida  a experiência foi oferecendo. O tal calo que só ganhamos com o andar do tempo.

De maneira alguma gostaria que os leitores ficassem com a ideia que não fui feliz no Alentejo. Já disse e repito : Fui muito feliz. Fui uma princesa. Tudo correu a primor. É verdade que de quando em quando, um pouco de melancolia, mais separação da família.  Mas melancolia é bom, acho que é o lugar onde se vislumbra a beleza, a consciência do tempo finito. Não fosse a melancolia quem criaria a arte? Ela não é uma doença é como que um apelo para transcender o status quo banal e sonhar possibilidades inéditas de existência. Se a deixarem florescer  no nosso coração, o universo ganha vida.

Os  alentejanos ensinaram-me isto. Não falando. Não se escondendo atrás dum bom humor programado. Não máscaras falsas. Não processos de desviar do abismo. Não disfarces. Mas simplicidade. Aceitação e por que não,  tristeza também. Fazem uma boa combinação.

E mais não digo. Estou a estender-me por um capítulo que me levaria longe e depois que fariam os leitores? Página virada na certa!

 

 

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