VACAS FELIZES …

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Em Portugal os comerciais na TV não primam pela originalidade, fazendo excepção o menino da Vodafone que realmente foi excepcional, dadas as faculdades da criança que o representou. Até fiquei com imensas saudades daquele comercial que me entrava pela casa dentro trazido pela graciosidade, carinho e bela apresentação daquela criança!
Presentemente aparece outro comercial que faz pasmar. É certo que já conhecíamos o assunto, mas fazíamos o possível por o manter no esquecimento.
O comercial de início só se limitava a referir-se às vacas felizes dos Açores, enviando umas imagens delas espalhadas lá nas pastagens que lhes foram ofertadas e nós compreendíamos a razão de tanta felicidade vacas que tudo tem sem nada fazer. É o máximo! Ou não? Dão leite, dirá alguém. Pois dão, direi eu, mas já foi pago e de que maneira! A preço d´ouro!
Agora o comercial na tentativa de dar mais veracidade à coisa, apresenta como exemplo três vacas de traseiro virado para a câmara, exibindo o reservatório cheio de leite. Queriam mais? Como diria Herman José “ Não havia nexexidade” Nós entendemos, logo de início, a mensagem. Qualquer um entende, não é necessário curso! Espírito da coisa vislumbra-se à distância! Vacas felizes, são vacas felizes que recebem o pasto suficiente para o ser e oferecem o que a câmara insinua. Ponto final.
A filmagem julgo que vem de S. Miguel. Penso. Mas os micaelenses que não se sintam empolgados! Eu tenho a certeza que nas ilhas de baixo, embora a superfície seja bem menor, existem mais vacas felizes. Sim, especialmente nas ilhas do triângulo. É um fartar vilanagem! São felizes desde sempre, falecem felizes, barriga cheia, as bichas!
Não tão felizes são os filhos delas! Os bezerros. Sim, porque eles desde cedo se vêem a braços com um problema existencial. Quem será o pai? E daí a procura insana do boi! Bezerro tem a mania de conhecer o progenitor mas não é fácil. A mãe não pode ajudar porque tem o tempo ocupado com a sua felicidade. E se o bezerro teima ela dá coice. E os bois lá da pastagem tem dificuldade na distinção do certo e do errado e se por acaso algum é apontado como pai do bicho, foge com o rabo à seringa, não vá a vaca escoicear e mudar de pasto.
E, certo será que a certeza não virá à tona. Cada bezerro terá que aceitar o boi que o aceitou a ele. Caso contrário, não há pai para ninguém! Por tudo isto se entende que não há bezerros felizes!
Vacas felizes! Tempo passado chamavam-lhes de loucas. Até o ministro da altura frente aos ecrans da TV comeu miolos delas para comprovar a não loucura. E daí se iniciou o esforço primeiro de tornar as vacas açorianas, não loucas, sim sérias, competentes, vacas felizes!
E, frente aos ecrans, traseiros voltados para nós, não se coíbam de fazer suas necessidades! Quantos de nós pomos nossas esperanças nos excrementos das vacas mansas!
Não pensem mais nos bezerros. É certo que foram sofredores. Mas isso fez-lhes bem ao corpo. Daí a fama que a carne desse animal tem de boa, tenra, gostosa. Carne de bezerro açoriano, carne gostosa pelo sofrimento do animal em busca do pai.
Sim, porque dia qualquer aparecerá um porão dum barco que levará os bicharocos à força a um lugar distante onde, forçosamente falecidos, serão saboreados por pessoas, que não exigindo B.I. , jamais imaginarão que aquele pitéu foi um filho bastardo dum triste boi açoriano. Bem feito! E num qualquer barco também, um dia partirá a vaca, já velha, sem préstimo nenhum. Isto é o que nós, açorianos, chamamos – gado de embarque.

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