Ao navegar pelo Pacífico, no coração da Polinésia, entrei pela passagem que dava acesso ao Atol Takaroa, onde sete anos antes já havia entrado aquando da minha primeira viagem a volta do mundo. Entre outros o meu objectivo era rever a família Goding, que me receberam extraordinariamente bem em sua casa. Era uma casa pequena, construída em madeira, na lagoa, em cima de estacas, como quase todas do Atol. A volta da casa uma quantidade de fios, deste esta até o fundo, cheios de pequenas ostras que mais tarde haviam de ser levadas para água um pouco mais profunda onde cresceriam e, se fosse o caso, produziriam maravilhosas pérolas. Claro que isto já seria o suficiente para prender minha atenção, mas o que realmente espantou-me foi a grande quantidade de chicharro pequeno que à sombra da casa cobria quase por completo o fundo. Logo imaginei que se morasse naquela casa certamente que muitos dos meus repastos seriam chicharrinhos fritos com molho cru. Por cá a pesca do chicharro, salvo raras exceções, foi sempre feita em embarcações de boca aberta, utilizando enchelavar, constituído por um arco feito com ripas de madeira da Acácia Amarela, pintado com tinta preta e um saco de rede com dimensão que pode variar entre as 6 até as 12 braças de diametro; o camaroeiro, constituído por uma pequena vara em madeira e na extremidade desta um arco de verga suficientemente forte para segurar um pequeno saco de rede. São estes equipamentos que os pescadores na pesca do chicharro, durante a noite, com uma ou duas luzes na borda das embarcações, utilizam em todas as Ilhas. Em São Miguel utilizam o enchelavar que pode ser arriado practicamente até o fundo das baías onde normalmente se faz esta pescaria, ao contrário das outras Ilhas que só pescam à superfície. Recentemente na Ilha de São Miguel, e só nesta, foram passadas cerca de duas dezenas de licenças pela Direcção Regional das Pescas para utilização de redes de cerco com argolas, que diferentemente do enchelavar, camaroeiro e mesmo rede de cerco para a borda (sacada), apanham quase tudo da superfície até o fundo e em grandes quantidades. Que se saiba para as outras Ilhas não foram concedidas licenças para redes de cerco com argolas. No passado o chicharro era considerado o “peixe dos pobres”, vendido ao cento e no caso do Faial nos portos do Capelo, Castelo Branco, Feiteira, Porto Pim e Cais de Santa Cruz e Pico na Prainha do Sul, em São João, nas Lajes e nas Ribeiras os pescadores, com os meios tradicionais, abasteciam com toneladas a população cujo hábito de consumo era bem diferente do de hoje. Segundo as estatísticas nos Açores houve anos em que o consumo de chicharro andou pelas 4 mil toneladas, actualmente não vai além das 1.300. Na Ilha de São Miguel, segundo os pescadores, foram autorizadas a mais redes de cerco com argolas, sem qualquer fundamento ou justificação, com as quais alguns poucos inundaram o mercado a ponto de haver grandes quantidades de peixe atirados a lixeira e os pescadores terem mesmo feito ultimato ao governo. Não se entende, ninguém entende, porque é que hoje no Faial o chicharro tenha que vir de São Miguel e ser vendido ao consumidor a preço nunca inferior aos 3 € o kilo (naquela Ilha preço garantido em Lota 1€). Se para o Faial e mesmo Pico fosse concedida licença para uma embarcação pescar com rede de cerco de argolas o mercado local seria regularmente abastecido de chicharro e cavala e os pescadores que utilizam para isco tal espécie, agora importada, sairiam também beneficiados. Por outro lado, em tempos a COFACO utilizou o chicharro e a cavala para conserva, esta também podia ser uma outra forma de contribuir para a viabilidade de uma indústria que atravessa graves dificuldades por falta de matéria prima. Felizmente que nos nossos mares chicharro e cavala é coisa que não falta, o que falta é uma boa gestão deste e de outros recursos.











