“Plataforma logística” da Praia da Vitória: retrocesso, concentração e menos emprego

0
23

 O facto da proposta governamental de Plano Regional de Ordenamento do Território (PROTA), que está  em debate na Assembleia Legislativa da Região Autónoma, indicar duas únicas “portas” de entrada e saída de mercadorias da Região, está a levantar um debate muito vivo em várias ilhas. Esse debate é indispensável, tem que ser lúcido, tem que ter presente as nossas circunstâncias e não outras e não pode deixar de considerar os antecedentes de toda esta situação.

Quando se diz que Ponta Delgada é uma das “portas” de entrada não se está a dizer nada de novo, nem nada que tenha que ser escrito no PROTA, porque essa é a realidade. De facto o porto e o aeroporto de Ponta Delgada são, de forma objectiva, estruturas onde se movimentam as mercadorias respeitantes a metade do território e consumidas ou produzidas por mais de metade da população. Este facto existe e não precisa de ser “determinado” por ninguém.

Quando se diz que a outra “porta” de entrada e saída é na Terceira, no porto da Praia da Vitória e que se destina a abastecer sete ilhas e a assegurar as exportações para fora da Região provenientes dessas mesmas sete ilhas, está-se a tentar criar uma outra situação, diferente da actual e geradora de novas realidades, com grandes impactos económicos e sociais nas ilhas visadas.

Como sempre acontece quando se pretende “vender” uma mercadoria de valor duvidoso, apareceu logo quem se encarregasse de arranjar um invólucro “vistoso”, “moderno” e eventualmente atraente. Nessa linha aparece a ideia de “plataforma logística”, associada às ideias de “redução de custos” e de “grande eficácia”. Quando alguns empresários, economistas ou políticos, defensores da “plataforma logística” da Praia da Vitória, desenvolvem as suas linhas de argumentação, embrenham-se na enumeração das “vantagens”, invocam critérios económicos, mas “esquecem-se” de evidenciar as consequências sociais e económicas da modificação. Quando falo em consequências, estou a pensar, quer naquelas que são muito negativas para as populações e economias de várias ilhas, quer naquelas outras que criam enormíssimas vantagens a um muito limitado número de empresas e empresários e que nunca são referidas.

Na minha opinião esta nova tentativa de alterar as regras do transporte marítimo de mercadorias, impedindo que um conjunto de ilhas possa continuar a receber e enviar mercadorias para o Continente de forma directa, seria um retrocesso inaceitável, quer em relação à nossa história, quer em relação ao enorme investimento feito em portos, em frotas apropriadas, em equipamentos portuários e seria também um sério retrocesso no que toca à estrutura da economia local de cada uma dessas ilhas, depois de privadas de ligações directas.

Os promotores actuais desta antiga ideia, já acarinhada há anos por Américo Natalino Viveiros do PSD e depois por Duarte Ponte do PS, visam também conseguir um processo de concentração empresarial, que enfraqueceria ou liquidaria dezenas de empresas da Graciosa, S. Jorge, Pico e Faial que ficariam privadas de importar directamente e que facilmente veriam o seu papel ser substituído por algumas empresas sediadas no parque comercial da Praia da Vitória e que, com facilidade, assumiriam o papel de importadores e reexportadores para as ilhas distintas da Terceira. Esse papel seria desempenhado em grata associação com a empresa de transporte marítimo que aspira a entrar na ponta final do circuito navios grandes – navios pequenos que seria obrigatório neste irracional esquema. Não é por acaso que os armadores existentes e que asseguram as ligações com o Continente não mostram qualquer entusiasmo por este esquema, que mais parece um fato feito à medida de alguém.

Essa concentração geraria progressivamente uma situação de menor oferta de emprego nessas ilhas, quer porque a actividade própria de importação e distribuição seria muito reduzida, quer porque as funcionalidades portuárias seriam muito alteradas e reduzidas, com óbvias alterações das missões, receitas e necessidades em pessoal das administrações portuárias dessas ilhas.

Por tudo isto esta alteração não se pode dar. Os empresários terceirenses que há muito procuram isto, têm que perceber que as ilhas a oeste dessa não são, nem querem ser, “feitorias” ao serviço da sua ambição, ambição essa que é bem maior do que a dimensão natural que podem ter. Se querem ter interesses em ilhas diferentes daquela de onde são, podem muito bem investir nessas ilhas, mas não podem é pretender alterar regras que afastam, ainda mais, as ilhas mais afastadas. Não queremos nem cargas baldeadas, nem contentores desconsolidados, nem demoras inevitáveis, nem portos vazios de navios maiores, nem administrações portuárias muito desactivadas, nem empresas locais enfraquecidas.

Queremos sim que o poder político tenha a lucidez de deixar de dar cobertura a esta grosseira manobra. Queremos que os políticos locais destas ilhas, afectos ao poder regional, em especial os que nos representam, tenham, por uma vez, a coragem de dizer não.

Termino dizendo que, mesmo que o PS persista teimosamente em manter no PROTA esta aberração, os habitantes destas ilhas, por poucos que possam ser e não são assim tão poucos, não vão baixar os braços. A Autonomia existe e bem, mas não para isto.

Horta, 20 de Abril de 2010

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!