Reflexões Crónicas – De Vlaamsche Eylanden

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Por volta de 1486 chegou ao Faial Martin Behaim (‘Martinho da Boémia’), um cosmógrafo alemão, que casou na então Ermida de Santa Cruz (antecessora da actual Igreja das Angústias) com D. Joana de Macedo, filha de Josse van Hurtere, primeiro capitão-do-donatário da ilha. Cinco anos depois, entre 1491 e 1493, Behaim esteve na sua terra natal, Nuremberga, onde construiu um dos primeiros globos terrestres da História (e hoje o mais antigo e apreciado). Nos apontamentos ao Globo de Nuremberga pode ler-se que as ilhas dos Açores são chamadas de “Ilhas Flamengas”, por terem sido povoadas por gente com aquela nacionalidade, entre os quais se destacava Josse van Hurtere, responsável pelo povoamento do Faial e sogro do autor do dito globo. Vários autores alemães e flamengos de finais de Quatrocentos e da primeira metade de Quinhentos registaram comentários semelhantes, reproduzindo nas décadas posteriores a ideia de que as ilhas (sobretudo o Faial) teriam sido maioritariamente povoadas por flamengos.
Hoje sabemos que Josse van Hurtere foi responsável pelo bem-sucedido processo de povoamento da ilha, mas dificilmente saberemos qual o efectivo flamengo que veio com ele, pois com os flamengos vieram também muitos portugueses. E, apesar da coordenação flamenga, prevaleceu a cultura social portuguesa, e consta mesmo que logo a primeira geração nascida faialense já só falava português, mesmo os filhos de flamengos, o que nos leva a questionar se estes últimos seriam em quantidade significativa. Não obstante deixaram a sua marca, evidente na toponímia: o Vale dos Flamengos e a “Espalamaca” (em flamengo a “ponta da agulha”). É discutível até que ponto esta presença terá realmente influenciado a História das ilhas, mas o certo é que a tradição prevaleceu. Ainda no século XVIII os Açores surgiam legendados como “De Vlaamsche Eylanden” – As Ilhas Flamengas, como no mapa que vemos na imagem, datado de c.1740. Também por cá o mito manteve-se vivo e mesmo produtos e práticas muito mais recentes são rotuladas de flamengas.
Lá fora continuaram a circular os mapas e os mitos das ilhas perdidas povoadas por flamengos e por estes dias um canal de televisão francês está nos Açores à procura de vestígios destas tradições.
Afinal o quão “Vlaamsche” seremos nós? 

 

cham.tss@gmail.com

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

DR

Imagem: Pormenor de uma carta náutica do século XVIII em que os Açores surgem ainda intitulados como “Ilhas Flamengas”

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