Reflexões Crónicas –Jos Dutra: «construtor do Império»

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Foi recentemente dado à estampa o livro Construtores do Império, da autoria de João Paulo Oliveira e Costa e Vítor Luís Gaspar Rodrigues. Os autores, ambos académicos com vasta obra sobre a Expansão Portuguesa, explanam o tema através da biografia de alguns dos seus principais intervenientes, que são apresentados na medida do seu contributo para a construção do Império Português – foram “construtores do Império”, e conhecer as suas histórias é conhecer a História de como um povo pequeno se fez grande pelo Mar.
Feita esta espécie de nota de enquadramento, é preciso explicar o que nos leva a escrever estas linhas (sobre este livro e neste local). Entre a galeria estrita de personagens históricos que são apresentados – representativosdos vários séculos de presença ultramarina portuguesa – e entre figuras como os Infantes D. Henrique e D. Fernando, Bartolomeu Dias ou Afonso de Albuquerque, surge o primeiro capitão-do-donatário do Faial, Jos Dutra, mais conhecido entre nós como Josse van Hurtere. Este flamengo foi o responsável pelo povoamento do Faial e do Pico, na segunda metade do século XV.
Foi Josse van Hurtere, também conhecido como Josde Utra (ou Dutra), que mandou contruir a primitiva Ermida de Santa Cruz (hoje Igreja das Angústias) junto ao local onde morava, onde começou a construir o principal povoado da ilha, uma vila que receberia o seu nome: Vila de Orta. Ele e os seus descendentes foram as principais figuras da governação do Faial ao longo de mais de um século, e os descendentes de seus filhos e irmãos deram origem aos muitos Utras e Dutras ainda hoje existentes, entre os quais se conta um Presidente do Brasil.
O livro não refere nenhum destes dados, nem são importantes ao caso, pois o seu objectivo não é contar as acções deste(s) homem(ns), mas sim explicar como elas foram importantes e o impacto que tiveram, muito para lá do seu tempo e geografia. Porque, neste caso, “a ocupação das ilhas atlânticas foi um passo crucial para a construção do Império Português” (p. 109) – e mais não dizemos, fica à curiosidade de cada leitor descobri-lo no livro.
Podemos, sim, dar exemplos de mais alguns faialenses que tiveram um contributo nesta saga, tanto eles como a sua importância histórica hoje esquecidos pelos seus conterrâneos: Diogo Pereira O da Índia (século XVI), nascido em S. Jorge de origem faialense, grande amigo de S. Francisco Xavier e considerado um dos fundadores de Macau; D. António Taveira de Neiva Brum da Silveira (1706-1775), Arcebispo de Goa e Primaz do Oriente, reformador do arcebispado, membro do Conselho de Governo do Estado da Índia e fundador da Capela do Santíssimo da Igreja do Carmo na Horta; António da Silveira Peixoto O Bandeirante (1737-1814), um “construtor” do Brasil cujo nome foi dado a uma rua de Lisboa; Miguel de Arriaga, O Ouvidor de Macau (1776-1824), figura cimeira da governação macaense no primeiro quartel de Oitocentos, ainda hoje recordado na toponímia local.
Foram figuras que contribuíram para a construção do mundo global em que hoje vivemos, tal como os primeiros povoadores das nossas ilhas, pois “Joss van Hurtere, a sua mulher e todos os que os acompanharam na passagem para o Faial e o Pico devem ser vistos como construtores do Império a par dos grandes navegadores e conquistado-res” (p. 123).

Tiago Simões da Silva
pensar@portugalmail.pt

Leia-se: João Paulo Oliveira e Costa; Vítor Luís Gaspar Rodrigues, Construtores do Império, Lisboa, Esfera dos Livros, 2017.

Imagem: Capela-mor da Igreja das Angústias, vendo no centro da abóbada o brasão dos Dutra, esculpido em madeira e mandado colocar na década de 1980. Foto no domínio público.

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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